segunda-feira

terra de ninguém*

[É o texto mais difícil de parir. Não tens ‘ângulo de ataque’, não tens ponto de vista, a protagonista, essa, conheces tu de ginjeira, não te encanta, não te seduz, andas até um pouco zangada com ela… mas é um texto necessário, no entanto. E não pode esperar mais.]

Não tenho certezas. Nunca as tive. Não acredito no amor. Não sei se alguma vez acreditei. Experimentei a paixão, já me senti enamorada – que é o lado doce do amor, suponho. Tenho saudades de voltar a viver essas emoções. Mas o destino não está comigo. E desabituei-me das regras da atracção. Deixei de saber como se faz. E sinto falta disso - muito mais do que qualquer outra coisa...

Tenho 44 anos partidos ao meio. Um antes e um depois de ti. E o vazio, agora – construído de forma muda, paulatina e muito dolorosa. Tenho um medo insano da solidão. Sempre o tive. Tenho pavor de não sobreviver. Tenho medo de ter medo. E de morrer devagarinho de tristeza. Tenho medo de magoar, mas também de ser usada e deitada fora. É uma ideia tão repetida que não consigo escapar-lhe. Sinto, repetidamente, que chego perto de qualquer coisa que podia ser boa, no exacto instante em que me diz(em) adeus.

Somo dúvidas e mais dúvidas a cada minuto que passa. Penso muito, sempre o fiz. Pondero, peso, avalio e aguento-me de pé. Pelo meio choro bem fundo e sofro uma eternidade.
Abano mas não quebro – digo-o para mim mesma, há tantos anos, que começo a acreditar nessa frase feita.

Não sei o que vai acontecer. Possivelmente nada de altamente recomendável. Mas tal como não comandamos o que vai na cabeça dos outros, nem as emoções que nos envolvem, o que vem a seguir nunca depende só do ‘eu’.
A única coisa que sei é que só tenho hipótese de sobreviver com um hiato, um espaço de nada sem ninguém, à espera de qualquer coisa... Que pode não chegar, por muito que procure.
E de que me vale ser disponível ou determinada?!
Ficar refém da terra de ninguém será a suprema condenação.(Antes a morte que tal sorte)

*in
http://iceberguederiva.blogspot.com/

2 comentários:

Anónimo disse...

palavras que descrevem muitissimo bem o que trago ca dentro e nao consigo dizer... ficar assim, a deriva, mas sentndo que ha uma força que puxa para essa terra de ninguem que nao quero conhecer mas que faz parte dos meus dias... dias sem sentido apesar de agitados, dias sem rumo... pensar, ponderear, pensar mais um bocado... tudo doi demais e doi fundo, mas nada mata... e as vezes penso que seria mais facil... "antes a morte que tal sorte". mas as horas continuam a passar e esta espera eterna por algo que nao conheço, que nao sei se vem torna-se habito, torna-se vida... sem sentido, mas vida. uma vida que nao quero viver.

ondaazul disse...

Como vos compreendo.

Quando se é católico(a), e é o meu caso, chega-se a um momento-luz em que se sente, claramente, que só Deus nos pode consolar. No entanto, as saídas para cima não são fáceis. Para começar, porque não temos asas, porque a vida nos conventos não deve ser fácil (tantas mulheres, meu Deus, e todas tão celestialmente longe) e porque Deus só é chamado a chamar-nos quando o instante o justificar. Resta-nos o rio ao longe, as árvores deslizando na auto-estrada, o mar desfazendo-se em espuma, como a memória, algumas fotografias de tempos idos e que já não sabemos reconstruir. Acreditar no presente asber que ele não tem futuro que o justifique, eis o desafio. Comlicado. Deixo-vos um abraço.