quarta-feira

T 2009 T

não é auto-comiseração, não. é uma dor funda no peito.
sente-se amputada. é como se o membro ausente fizesse um vazio grande.
todos os dias dorme muito, menos do que o necessário. e tem pesadelos, de contornos nítidos. todos a fazê-la acordar num sufoco: o que significam? um tecto que se infiltra e a submerge. um naufrágio na costa de uma ilha escarpada; roubo de haveres que não tem. pessoas, muitas pessoas a dar ordens.a deambulação sob o temporal, por ruas que não conhece. uma casa em ruínas e tudo escuro. trapos que cobrem um corpo seu estranho. ela nunca se perde nas histórias dos pesadelos nocturnos, mas tenta em vão respirar um mínimo, apesar da corda à volta do pescoço.

e depois, o buraco no lado esquerdo - onde lhe falha tudo. um precipício agudo sem tamanho, um medo rasgado, o sofrimento parceiro.
depois acorda. e aí o pesadelo torna-se maior. a realidade é mais cinzenta. não há contemplações para a perda. foi amputada e não a avisaram de nada.
apercebe-se que teve uma parte amputada de sopetão. e nesse instante perdeu a única parte que prezava mais que tudo.
falha-lhe a única parcela de vida com gosto, o que era vontade e não consequência.
não interessa se perdeu o trabalho, se tem saúde, ou uma doença fatal.
é aquela perda, que não suporta. não entende o valor da falta que lhe faz dor.
limita-se a sobreviver ao pesadelo acordado por uma ausência insuperável.
queria dormir até não acordar mais, ou ser acordada por um toque na porta e a figura perdida, à procura de uma sobrevivente... alguém que dissesse que sim, foi só uma vaga de mau tempo, passou.
nada disso sucede. nada suprime a amputação esquerda. e tem a cicatriz no pulso dos dias em que a pele queimou.
tenta em vão apagar os vestígios digitais da perda. não consegue. fixa-se neles e aparvalha.
ela só queria acordar noutro corpo, no próximo ano. e deixar a alma perdida neste.

segunda-feira

o homem que não queria despedir-se do ano velho

um viajante intrépido esperou pelas 23h00 de dia 31 de dezembro na nova zelândia e atirou-se ao mar. nadou velozmente alheio às correntes, às vagas de ondulação ou ao gélido humor das águas. braços e pernas, respiração e intuição, dispensavam gps. seguiu adiante, alucinado, esbracejando de forma compassada e batendo as pernas num vigor nunca visto. o homem não parecia humano. acabou por chegar no mesmo dia, à mesma hora, à terra do fim do mundo.

domingo

creio, logo rebelo-me

há poucas coisas sagradas na vida, para além da vida. e nada é inevitável, se for de raiz humana. a verdadeira rebeldia parte destes pressupostos: a recusa de dogmas, a negação de vontades divinas, a contestação da fatalidade das escolhas. tudo mais é passível de uma boa conversa.

sábado

do nada, questiono

porque é que um pesadelo leva mais tempo a destruir que um sonho a construir? ...e, mesmo assim, há mais agentes do pesadelo que activistas do sonho?

quinta-feira

da família

família não são os laços de sangue 'porque sim'. família é uma condição de afectos, correntes de conforto. criar, cuidar, amar.
há pessoas que nessa condição me vitalizam: a ana, simply the best, guardiã do caminho. lúcia, lanterna que indicou o sentido. salomé, albergue nos piores dias e desafio para os melhores. helena, que entende o desalinho e domina as coordenadas das noites. marisa no indizível de sempre. madalena, um check-in ao quotidiano. graça e o seu desarmante non-sense. tati, contacto para que a viagem prossiga. f., uma atenção sem feedback. andré, gonçalo e tiago, companheiros que me divertem. o mimo de d. e m., maduras reservas e espaço de cuidados. e as miúdas - a.c. e m.c.-, com sorrisos que me comovem e preenchem de sentido.
sou grata a estas gentes, o melhor dos tempos que estão a mudar.
e sorrisos.

quarta-feira

da pena

ter pena é talvez o mais desagradável sentimento.
pena tenho das galinhas que cacarejam e se debicam, ignorando que lhes vão cortar o pescoço.
pena tenho daquelas pessoas a quem nada podemos fazer para melhorar a sua existência, por mais que nos empenhemos.

terça-feira

solidãoriedade

a vantagem de ter poucos amigos é que eles/as nunca deixam de o ser. damos e recebemos de coração aberto. doseamos mentiras piedosas para não magoar com frontalidade em alta voz. e somos grat@s. sobra espaço para observar o mundo e tempo para conhecer as pessoas.

segunda-feira

o rei do mundo

o medo encontrou-se com o servo da justiça e perguntou-lhe o que queria.
não levas nada de mim, desaparece.
o servo da justiça respondeu que só reclamava o que lhe era devido.
o medo entrou em pánico e desatou a estrebuchar sem sentido.
a justiça lembrou que mesmo um vadio merece a mais elementar boa educação, apenas um pingo de atenção. e não era o caso.
o medo espalhafatou de telefone em riste: acudam-me, que fui apanhado em falso. e bato o pé, bato o pé, porque sim. e eu é que sou o rei do mundo!


e é verdade: o medo é o rei do mundo, tem a consciência pesada e as digestões difíceis. alimenta-se da culpa - real ou imaginada - e tolhe-se se alguém não desvia o olhar. o medo comanda a vida sem sentido.
no meio desse exército de seres aloucados, perder presumíveis amigos é uma benção.
mesmo quando não se faz a justiça toda, alguma coragem, bastante discernimento e q.b. de bom senso pode fazer alguma. para os crédulos, há sempre a justiça dos homens. e o universo encarrega-se do resto.

sexta-feira

o natal sai do armário

do facebook* directamente para a blogosfera, uma versão gay&friendly do conto de natal...

Conto de Natal de Javier Sáez

José era carpintero, judío y gay. Haciendo uso de sus conocimientos, se había fabricado un gran armario en Belén, en elque vivía con su amiga María, al abrigo de la persecución homófoba que había desatado el imperio romano contra los homosexuales y los judíos de Jerusalén. María no había conocido varón, era lesbiana, y había decidido tener un hijo por inseminación artificial con el esperma de su mejor amigo, José. Ahora se encontraba a punto de dar a luz en el armario de Belén. La noticia corrió por el ambiente y llegó hasta los rincones más alejados de Oriente.


En el Kurdistán vivía el antiguo rey Melchor, que había sido destronado por los turcos cuando invadieron el país. Melchor tenía 50 años, llevaba una larga barba blanca que cubría un torso ancholleno de vello que hacía las delicias de los pastorcillos kurdos. Había conocido a José en el cuarto oscuro de un bar de Ereván, la capital de Armenia, y sabía que él y su amiga María esperaban un niño, así que decidió ir a verles para celebrar con ellos el alumbramiento. Se montóen su camello con algunos regalos -una chupa de cuero para María, una botella de popper de Kazajstán para José y la última edición en pergamino del Planeta Marica- y se encaminó hacia Belén.
Al llegar a un oasis en el desierto de Palestina Melchor hizo una parada para ir amear junto a una palmera, y en ese momento se encontró con un hombre de hermosos bigotes, ya entrado en años, que estaba meando a su lado y quele miraba insistentemente. Melchor le invitó a pasar la noche con él en su tienda. Durante la cena el hombre le explicó que se llamaba Gaspar, era palestino y había sido rey. Casualmente también conocía a José y la noticia del parto, y en ese momento se encaminaba a Belén para conoceral niño y darles algunos presentes: opio iraní de la mejor calidad para ella y telas de Palestina para él. Melchor y Gaspar pasaron una apasionada noche de amor en el oasis, y decidieron ir juntos a Belén.

A los pocos días Melchor y Gaspar llegaron a Jerusalén, y decidieron ir a una sauna a descansar. En esos días de invierno la sauna era muy visitada, pues era un lugar cálido y tranquilo donde charlar y disfrutar. Melchor y Gaspar repararon inmediatamente en un hombre grande, de piel muy oscura y barriga peluda, que les fascinó de inmediato. Se acercaron a él con ánimo deconocerle, y les dijo que se llamaba Baltasar, era uzbeko, rey de una tribu del norte de Afganistán, y había huido de la represión que habían desatado allí la secta de los tulipanes contra las mujeres y los gays. Decidió dirigirse a Belén a ver a su amiga María, de la que sabía que estaba encinta, y le llevaba como regalo tres caballos árabes y undisfraz de drag-king. Entre los tres cundió un gran regocijo al descubrir la casualidad de conocer a José y María, y lo celebraron pasando la noche juntos.

Eran aquellos los días del rey Heterodes, quien gobernaba toda Judea con una gran homofobia. Un espía del rey había oído la conversación sobre María en la sauna, y se lo comunicó a Heterodes. Éste no podía soportar la idea de que una mujer lesbiana tuviera un hijo, así que decidió urdir un plan para matarle. Hizo llamar en secreto a Melchor, Gaspar y Baltasar y les interrogó sobre el nacimiento del niño, con la excusa de que quería ir él también a adorarle. Así que les pidió que una vez que le hubieran visto, volvieran para decirle el lugar de su nacimiento. Los Reyes Magos conocían la fama de Heterodes y, desconfiando de sus intenciones, partieron hacia Belén sobre sus camellos sin decirle su destino. La noche siguiente hicieron un alto para dormir en la montaña y vieron en el cielo una luz muy brillante que se acercaba hacia ellos. Era un gran trineo tirado por renos alados, y guiado porun hombre grueso, con hermosos cabellos y barbas del color de los osos polares, vestido de terciopelo de color rojo. El hombre descendió desde el cielo hasta donde estaban los tres reyes y les miró, admirando la belleza de sus cuerpos y de sus rostros. Se llamaba Santa Claus, o Papá Noel, y pertenecía a una ONG finlandesa de gays y lesbianas. Los reyes se fijaron de inmediato en el paquete de Papá Noel, y le preguntaron sobre su contenido. Él les contestó que había oído la buena nueva del nacimiento del hijo de María, a la que conocía, y que en el paquete llevaba las obras completas de Tom de Finlandia y de Monique Wittig como regalo. Los Reyes Magos encendieron una hoguera e invitaron a Santa Claus a quedarse con ellos a cenar. Éste aceptó, y, tras la cena, les invitó a degustar distintos licores lapones que llevaba en sutrineo. Los vapores etílicos calentaron sus cuerpos y les animaron al baile y al canto, y finalmente al amor.

Al día siguiente Papá Noel y los tres reyes se encaminaron a Belén. En el camino vieron a un grupo de cuatro pastorcillas que iban en su misma dirección, y que resultaron ser amigas de María. Iban también a verla por el nacimiento de su hijo, y le llevaban un carro como presente, dado que, según comentaron las pastoras, a María le gustaba mucho conducir todo tipo de vehículos. Ya al anochecer divisaron en el fondo de un valle la silueta de un gran armario, en el que estaban José, María y el niño, al que llamaron Emmanuelle, en homenaje a una famosa actriz de teatro asiria. María estaba apostada en la puerta del armario, de pie, con su cayado en la mano derecha, vestida con pantalones de piel y una pelliza de borrego; José, que cubría su cuerpo con una túnica de color verde oliva, estaba sentado dentro y llevaba en sus brazos a Emmanuelle, al que cantaba canciones de cuna con su voz grave y dulce, mientras el niño jugaba enredando sus pequeños dedos en las barbas negras del carpintero.Cuando María vio llegar a tantos amigos juntos, tiró el bastón al aire y fue a su encuentro riendo. Los reyes magos fueron a buscar a José y le animaron a salir del armario. Éste, sorprendido por la visita, dio un grito de alegría y salió al aire libre con el niño para abrazar a sus viejos amigos. María propuso hacer una fiesta y disfrutar de los regalos. Pasaron la noche comiendo y bebiendo, Papá Noel recitó las viejas sagas islandesas con la voz adormecida por el opio, Baltasar bailó en honor de todos danzas de su tierra, rodeando al grupo con un círculo hecho con las telas de Gaspar, María cantaba poemas de Safo subida en uno de los caballos, mientras las pastoras, desde el carro, tocaban instrumentos de cuerda y percusión al ritmo de sus versos. Melchor y José mezclaban todo tipo de bebidas con abrazos, besos y recuerdos. Emmanuelle miraba, fascinado, las altas llamaradas de fuego que se elevaban desde el armario hasta la luna.

* gracias a P.

quinta-feira

«If I had something bad happen to me, then I needed to write so it would get better. But then when for a while bad things stopped happening, I didn't have anything to write.»

Entrevista a Diana Athill, 91 anos, editora de autores como Philip Roth, Jean Rhys, VS Naipaul, Brian Moore ou John Updike. [da revista Ler]

segunda-feira

o efeito do tailleur


desde lauren bacall que o tailleur me encanta. prefiro os pretos. com eles, como dizia a ivone silva dos vestidos, 'nunca me comprometo'. o preto dá bem com os humores todos e sobressai na confusão dos cegos pela moda. também tenho um fraco por camisas brancas, confesso. posso apanhar a roupa da corda com uma camisa branca, inclusive de tailleur e saltos, mas já o branco da farpela, numa discoteca, encandeia-me a vista. e é o bom-senso das copinchas, sempre impecáveis de negro, que me guiam na multidão.
dizia eu, então, que desde os filmes negros, maravilho-me num tailleur. o que eu mal percebera é que o mesmo efeito se espalha na vizinhança. hoje foi mesmo assim, formato executiva: tailleur preto e camisa branca. cansadérrima chego ao escritório, e recebo um "..mas que gira que estás hoje!" - mesmo vindo de uma colega que não é da 'equipa', a exclamação arrebitou-me para os outros afazeres.
pode estar-se sem ânimo para ripostar um piropo, andar com a moral em baixo, sofrer de dores várias, mas a verdade é que um tailleur preto eleva a precisão do olhar...



domingo

da sinceridade relacional

longe é um lugar que não existe. a frase não é minha. basta andar por aí e apanhar ideias destas nas paredes, em cartazes, em conversas escutadas. pode ser até um programa de rádio, três minutos por dia cheios de clarividência - descobri agora... um psiquiatra e uma psicóloga nas respostas às perguntas comuns, através de mésicles helin, um dos dois melhores sonoplastas da tsf. o programa é Pensamento cruzado - "gestos, comportamentos, hábitos... Como nos vemos no dia a dia ou como deixamos de nos ver no tapete rolante dos dias... O que sentimos nos outros e como nos sentem..." lá aprendi que choro pode ser manipulação, pode, mas se os olhos são o espelho da alma, as lágrimas servem para lava-la. uma tristeza que flui não é necessariamente má, é tristeza a diluir. mas 'tristeza congelada' é depressão. e, last but not least, sim, precisamos sempre da capacidade de perceber o contexto em que estamos, não é uma bizarria... as pessoas precisam de coerência relacional, simples: é sintonizar a comunicação não verbal com a comunicação verbal. vão lá escutar-se...

agir

"Onde houver uma árvore para plantar, planta-a tu.
Onde houver um erro para emendar, emenda-o tu.
Onde houver um esforço de que todos fogem, fá-lo tu.
Sê tu aquele que afasta as pedras do caminho.
Sê aquele que afasta as pedras do caminho, o ódio dos corações, as dificuldades de um problema. "

"[Dai-me Senhor,] a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço."

- Gabriela Mistral



icebergue à deriva no sul

sábado

a indulgência

folhei um livro que falava de cores. algures surgia a preguiça. e depois "a indulgência do coração"... um pecado capital no nosso quotidiano, prepertado a toda a hora por aqueles/as que, frente à indigência humana, se guiam pela indulgência do coração.
uma minoria, onde me descobri militante a tempo inteiro. não é necessariamente uma qualidade.




We Are The People

Empire of the Sun | Vídeos de Música do MySpace

sexta-feira

φάντασμα*

100% imprevisível. um terramoto é sempre unilateral. a derrocada é geral. não há maneira de segurar a destruição. são segundos eternos que persistem pela lembrança das testemunhas. no meio do caos que se instala há salteadores, solidária gente, indigentes e sobreviventes. e a aparência imaterial de uma figura humana, vulgo fantasma*.


quinta-feira

quando o telefone toca

quando o telefone toca era um programa de rádio de discos pedidos da minha infância. anos mais tarde, conheci como se fazia o mesmo programa de rádio, ...porque trabalhava na estação.
'quando o telefone toca' preencheu o vazio de muitas casas no tempo em que não havia televisão e a noite, na província, limitava o lazer fora de portas. os discos eram pedidos pelos ouvintes a partir de telefones fixos, do café, de vizinhos, do próprio. os pedidos eram invariavelmente para o 'nacional-cançonetismo' e, mais tarde, para a música popular portuguesa, essa noção abrangente de um certo perfil musical. ignoro se ainda existe 'quando o telefone toca'. mas sei que quando ele não toca, as escolhas são realmente múltiplas. e absolutamente livres.

quarta-feira

estados vegetativos

os estados vegetativos têm grandes vantagens. reduzem ao essencial as necessidades e, quando não apagam por completo os neurónios, dão uma clarividência única.
a g. e a h. desempenham com galhardia uma missão terapêutica e fazem-no gratuita e afectuosamente. sobretudo a h., que eu não via há vários anos - ela também hibernara - assumiu aquela personagem que eu nunca conheci, mas pratico todos os dias. a minha gratidão é incomensurável, porque nada do que recebo era suposto.
os estados vegetativos têm outras grandes vantagens: separam o trigo do joio nas relações sociais. a s. faz-me a surpresa de me pôr a participar em coisas que não estariam no horizonte. e, quando percebe, surpreende-me ao jantar e dou-lhe troco ao almoço.
a vida é feita destes equilíbrios. e também de outros figurinos: as ausências de contacto por inexplicáveis motivos, que duram anos. mas eis que subitamente, esse alguém liga-nos, apenas e tão só, porque precisa de um favor pessoal-profissional [deve ser por isso que se diz que a vingança, mesmo moral, é um prato que se serve frio].
há ainda quem não mire o/a outr@ com olhos de ver, nem active ouvidos, continuando a despejar pequenos ou grandes dramas pessoais. sou boa em coaching - dizem. tenho o hábito de accionar os dois olhos e os dois ouvidos, e deixar para o fim a boca. esse fado persegue-me, apesar do meu humor convexo, e dou comigo a terapeutizar quando o divã devia ser meu.
há ainda as figuras folclóricas que só querem checar estados de alma, como se o facebook fosse um café com esplanada num dia de sol.
finalmente, há as amizades que duram e se resguardam, à espera que passem os ventos adversos, ou que a personagem vegetal seja por eles levada.
estes tempos são um barómetro excelente das relações humanas e uma prova de fogo do carácter das pessoas.

terça-feira

ela,她,elle, هي, she,היא, ella, वह, она

ela diz: limpa as lágrimas, levam tudo; para a frente é que é o caminho. coragem e saúde é o que é preciso.
ela é quem mais me preocupa. ela é hoje o que era suposto não ser, e ainda assim, não podia ser melhor. amo-a tanto que temo que quebre a cada precalço meu. e ela mantém-se segura e sábia, solícita sempre. não vivo a vida dela e há algum azedume que não queria de todo experienciar. mas entendo-a. talvez não me tenha legado nenhum, e bem que me faz falta.
acudiu-me quando precisei e salvou-me num reflexo [que só elas têm] quando podia ter-me ido. já lá vão uns anos e nunca me esquecerei do desespero que lhe li então na carne. e foi o pavor, que só acontece quando se pressente a morte ou uma tragédia maior, que então me resgatou in extremis.
haverá mais coisas que tenho para lhe agradecer, nunca explicitamente, não com palavras, sequer com gestos - sempre parcos. o que mais posso dar-lhe é atenção e respeito, e uma sanidade que procuro exaustivamente. ela não precisa de ralações. ela é de paz, mesmo quando esbraveia.
um dia ela vai faltar-me, a menos que eu falte primeiro. seria uma dor de alívio para mim. um desgosto mortal para ela. e nesta hesitação, sobrevivemos.

segunda-feira

saudade cifrada

sempre fui dada a datas. o meu subconsciente lembra-me, impreciso, as datas, os aniversários e as efemérides que marcam o passado. do futuro, eu não sei nada.
desse nível das sensações que não controlo veio-me uma inquietude grave, nos últimos dias. dormi, mal e muito, sobre o assunto. faz todo o sentido, mas nem isso reduz a tristeza ou aplaca a dor. tenho saudades dos tempos em que fui feliz, contigo. foram-se esses momentos e eu fiquei sem saber porquê - abrupta e inesperada que foi, para mim, a ruptura. sei que o tempo, quando deixo que ele escorra pelos dias, me leva à paz com aqueles/as que amei. isso vai acontecer também connosco. até lá, queria sinceramente resolver o pendente e só peço que dês esse passo para fechar a porta. não volto a importunar-te, resolvidos os números. quero tempo para esquecer que fui feliz. preciso mesmo esquecer. faz-te esse pequeno favor para não seres mais incomodada. o amor persiste [ou será outra coisa?]
só o abandono de tudo pode libertar-me do desalento. obrigada.

domingo

isto está pró repetitivo

em 2005, em 2006,... 2009: 2010...
começar o ano sem cumprir os rituais,... a ver no que dá - nem pular da cadeira, nem engolir doze passas, muito menos bebericar champanhe ou, sequer, formular desejos.
não inventar esperanças: esperar realidades.

sábado

nouvelle vague, autre fois




>"la prochaine fois que tu me vois, ignore moi, ignore-moi..." (*)
my name - mélanie pain (ex-vocalista dos nouvelle vague)
seguido do diálogo "i want a fuck to remember' a lisbonne"



(*)Fait comme s'il n'y avait jamais rien eu entre nous deux et continue ta route,
oubli moi désormais,
Fait comme s'il ne c'était jamais rien passé et accorde un laisser passé à cette pauvre idiote qui t'aimer.

Refrain :

La prochaine fois que tu me vois,
ignore moi, ignore moi

Fait comme si tu me connaissais pas
Fait comme si j'existais pas de grâce ne me laisse aucun espoir.
Fait comme si tu m'avais jamais vu
Fait comme si je n'existais plus, je préfère l'enfer au purgatoire.

Refrain :

La prochaine fois que tu me vois,
ignore moi, ignore moi
Fait comme si j'étais une étrangère,
A l'avenir je te suggère chéri, ceci ignore moi,

Refrain :

La prochaine fois que tu me vois,
Ignore moi, ignore moi
Fait sa pour moi la prochaine fois que tu me vois,
Ignore moi, ignore moi.

quarta-feira

"nosotras, las mujeres son más duras de matar"

michele bachelet, a presidente da república do chile, proferiu em lisboa uma conferência* para mulheres (e homens) por iniciativa da umar.
bachelet é uma das poucas chefes de estado e chegou a presidente sendo de esquerda, feminista, mãe solteira, ex-exilada, pediatra reconhecida, e muitas outras coisas. é um emblema das mulheres que fazem a diferença na sociedade, quando participam, quando lideram.
vai sair de cena em 2010 porque não é possível, no sistema político do chile, recandidatar-se. aproveitará para compensar a família (os filhos) pelos mais de dez anos de serviço à causa pública - pode ser que possa dar mais conferências e escrever memórias... o testemunho que deu perante uma plateia heterógenea nas ideologias, plural nos activismos e diversificada do ponto de vista etário é impossível de resumir. michele é também uma mulher sedutora que exala empatia, entusiasmo e informalidade.


bachelet enunciou dados que mostram que mulheres em cargos de gestão em empresas produzem nestas melhores resultados de rentabilidade. identificou nelas algumas características: são mais prudentes, planificam bem, tomam mais opções de longo prazo, medem melhor os riscos e preocupam-se em constituir reservas.

bachelet não dissertou no vazio como fazem as nossas políticas profissionais quando chamadas a falar de igualdade de género. contou o que fez em concreto no chile, as medidas que impôs, as mudanças lentas que se operam e que, assegura, não voltam atrás - nem na lei, nem sobretudo nos valores e nas mentalidades.
alargou o ensino obrigatório de 12 anos para 14, criando dois anos de pré-escolar; assim, os miúdos são acompanhados mais cedo, as mães estão mais disponíveis para trabalhar - no chile, 1/3 dos 'chefes de família' são mulheres...
as mulheres também vivem mais. mas o sistema patriarcal, o machismo, as várias desigualdades deixavam as mulheres desprotegidas na velhice. bachelet instituiu a 'pensão básica solidária' para donas-de-casa e bónus por cada filho, parido ou adoptado. e, para minorar o drama da maternidade adolescente, generalizou a educação sexual nas escolas e o acesso à pílula do dia seguinte.
percebeu também que o trabalho doméstico impedia muito as mulheres de continuarem a estudar ou a participar civicamente, porque não podiam estar disponíveis a desoras: criou um código na administração pública, que as empresas também adoptaram, e que alterou essas condições (nomeadamente, depois de certa hora não há reuniões).
o chile tem hoje 25 casas de acolhimento e 68 centros de acolhimento para mulheres (em breve, uma centena) - esta foi parte da resposta à violência doméstica e ao desamparo das mulheres.
na política, michele bachelet lamenta a fraca participação feminina, mas não impôs quotas - implementou-as ela mesma. se metade da população são mulheres, num gabinete de 20 membros há dez ministros e dez ministras, e o mesmo fez replicar em secretarias de estado e por aí fora. infelizmente, diz, no senado e na câmara de deputados uma ridícula minoria de mulheres é candidata e consegue ser eleita. para bachelet é simples:"alguém imagina uma selecção nacional de futebol com metade dos jogadores em campo? não é possível, nunca sairia vencedora. e assim é com a sociedade, quando rejeita metade das pessoas."

depois de ter começado a conferência com uma mensagem sobre a necessidade de ser-se optimista, bachelet sublinhou que é essencial para as mulheres terem visibilidade. "as mulheres são talentosas e têm de ser visíveis" - ela própria explicou que foi um anterior presidente que a tornou visível, primeiro como ministra da saúde, depois como ministra da defesa. e foi nesta qualidade que um dia ela viu um cartaz, num encontro com mulheres de armas, nos eua. dizia: "nós, mulheres podemos tudo, mas não tudo ao mesmo tempo".
não há, pois, supermulheres. mas é decisivo, diz bachelet, não se render nunca à adversidade e procurar o apoio da comunidade e de outras mulheres.


*Conferência "Género e participação política: a experiência do Chile"- F.C. Gulbenkian

os olhos

diz-se que os olhos são o espelho da alma. dizem que brilham, aguados, os meus.
a miúda virou-se para a mãe e perguntou-lhe porque tinha os olhos assim...?ela ficou na dúvida e pôs a mão na testa. não havia sinal de febre, nem lágrimas ameaçando, só o olhar do costume.
perguntou à amiga se os olhos estavam mais brilhantes que o habitual. S. disse que não, iguais a sempre, brilhantes sim.

os olhos são o espelho da alma. e, se bem que, às vezes, os olhos se escondam, terem ou não brilho depende da natureza do ser. as almas translúcidas, os corações sinceros, os corpos disponíveis, as pessoas solidárias, os seres de compaixão, têm olhos que brilham. podem ser verdes, azuis, amêndoa, castanhos, pretos. os olhos espelham as luas cheias e o íntimo de quem os veste. os olhos só mentem na medida em que se escondem. na proporção do abismo que criam entre o que fazemos e o que pensamos fazer. entre o que sentimos e pensamos, e o que agimos. só a descompensação da coerência torna os olhos opacos. os olhos não mentem. quando muito omitem. mas quem perde é o mentiroso. os olhos nunca vão conseguir omitir a verdade da alma. por mais lentes que se usem ou armações que se mudem, os olhos vigiam-nos por dentro e inelutavelmente conhecem o destino, antes da partida.na fuga do olhar presente-se apenas desorientação.
pelos olhos dos outros vejo: há tudo o que as palavras não mostram ou os gestos não dizem.

queria perder-me nos teus olhos, como outrora.

segunda-feira

amig@s

às tantas, damos por nós a reescrever-nos.
há mais de dois anos, não tinham corrido as águas turvas dos últimos tempos, eu já intuia, afinal, o que vale a amizade.
aqui

domingo

revoltas optimistas

a revolta é o mosto da tristeza.
as uvas têm de ficar alegres quando chegam ao lagar...
dizem que é pelo mosto que ganham vida e criam vinho.
tal como uma tristeza a fermentar gera revolta.
apesar de ser um termo assustador, a revolta é um bálsamo para a tristeza. nem sempre, é certo. a gente põe a tristeza a alcoolizar-se e flui a revolta.
as melhores uvas devem comer-se em ocasiões excepcionais, bago a bago - para morder a experiência e saborear o resultado.
e, depois, que se faz ao engaço? na vitivinicultura pode ainda dar boa aguardente. na fervura da emoções tristes, sobram restos de incongruências, retalhos de contas mal feitas, presentes passados, e um mal-estar dilatado pelo tempo. não há hipótese de boa aguardente. das melhores uvas surge, tão só,um barca velha, até um duas quintas, mas nada sobra para bagaço que ilumine uma candeia.

a revolta é uma labareda que pega fogo à alma do ser desalentado. quanto mais sofrida é a tristeza, mas se incendeia a revolta. enquanto arde, não pára para ganhar o fôlego do discernimento, nem compaixão pelo alheio.
até que vai repousar a combustão da alma longe das amizades dissimuladas.

a revolta produz um ingrediente que nos tolda o físico e nos enobrece o coração. toda a genuína revolta será perdoada, como todo o excesso será amnistiado.
triturada pela revolta, a tristeza torna-se um acto sedutor, mistura de ternura arrefecida e carinho recatado.

se há gente demais revoltada, não quer dizer que seja gente com revolta a mais. é mesmo com revolta a menos, porque uma coisa é o discurso e outra, bem diferente, a prática. dos discursos já sabemos o rumo: só três ou quatro mudaram alguma coisa nos últimos cem anos. uma acção pequenina muda sempre qualquer coisa em qualquer lado, todos os dias.

a falsa revolta cria vítimas imbecis e julgamentos na praça pública. vive de juizos apressados. não reconhece o direito ao contraditório. a falsa revolta vive de estereótipos e de opiniões definitivas. cria gente amarga e prepotente, sozinha com a ilusão da popularidade. a falsa revolta é anti-científica: reza aos valores, cagada de medo que a sua intrínseca fragilidade caia na rua.
a falsa revolta devia configurar um caso de violência psicológica, com direito a estatuto de crime público. e, aí ,talvez fosse preciso meter psicólogos ou sacerdotes ao barulho, para avaliarem os danos emocionais da hipocrisia geral.
a apav deveria ser apave - porque é o emocional que espoleta a violência. e é aí, no baú das emoções, que a cura começa. em desigualdade, embora: porque , como bem sabem os especialistas, nem toda a gente tem emoções. é um distúrbio de personalidade, mas não é um mal socialmente grave. porquê?

sexta-feira

foda-se!

e pronto. fartei-me. puta que a pariu. como diz uma gaja minha amiga, cito: Se é para conversar conversa-se já, se é para resolver resolve-se já. O meu método de trabalho é este e transporto-o para a minha vida pessoal.
e agora, para mim, esgotou-se a paciência. é só uma questão de oportunidade, que eu arranjo-a - e não vais continuar a rir à minha conta. cada cêntimo chulado vai sair-te do pelo.
neste mundo cão, porque é que certas alminhas acham que estão a salvo?! puta que pariu. que me enrolem, que abusem do cinismo, que sejam oportunistas, que sub-existam na falsidade, ainda tolero... mas se me fodem o juizo, fujam da frente!
e há realmente quem ache que vive numa redoma de aço com uma conta por pagar. é que nem a demência infantilóide duma gaja retardada desculpa uma atitude dessas! puta que a pariu.
dívidas são para liquidar e, se não é de modo voluntário, então é doutra forma. não gosto que me 'comam' por parva e ainda fiquem no bem-bom, sem dizer água-vai. pois se me lixam a conta bancária, eu cobro. se me fodem o equilíbrio, não perdem por esperar troco.
'tadinha da mãe que não abortou uma largatixa como tu.


ps - é isso: internei a gaja zen que há em mim para soltar a fera... e buda perdoa porque compreende o sofrimento :)

domingo

final (20)

num país de gente tão disciplinada e chico-esperta, discutir a hipótese de referendar o casamento entre homossexuais é mais um caso de "esperteza saloia".
uma ampla maioria de eleitores votaram em partidos que tinham o fim da discriminação no casamento no seu programa. comprometeram-se a legislar no sentido de acabar com essa desigualdade que, aliás, contraria a constituição da república. claro que o código civil diz que o casamento é uma instituição entre pessoas de sexos diferentes. mas a constituição é a lei máxima e, se algo há a mudar, é o artigo do código.

que dois gays ou duas lésbicas se casem é assunto que só a eles e a elas diz respeito. não interfere com estranhos ou terceiras convicções, a não ser no sentido em que passam a ter de tratados com a mesma dignidade de casal, no que diz respeito a ter filhos, a heranças, a apoio familiar e até a dívidas. só por isto, casar não prejudica ninguém, apenas beneficia a sociedade.

que se crie uma lei que admite o casamento entre pessoas do mesmo sexo mas se 'salvaguarde' o direito de gays e lésbicas adoptarem é uma bizarria. se casais heteronormativos podem adoptar, dentro de certas condições e burocracias, os homonormativos não podem, porquê?
inventar uma lei que reconhece dignidade do casamento mas exclui direitos é um contrasenso - e uma ilegalidade.
mais, o que acontecerá num casal gl em que há crianças e jovens que um ou os dois membros do casal já têm a seu cargo, porque filhos de anteriores relações, adoptados, nascidos por inseminação, etc.?
voltamos a ter dois tipos de filhos? os filhos legítimos e uma espécie de filhos, agora talvez filhos (anti) naturais?

como não está provado que casais gl tenham menos competência para o serem, também não está provado que sejam menos habilitados a serem pais ou mães. exercer o poder parental é essencialmente um acto de generosidade e grande responsabilidade. acresce que muitos casais gl têm poder de compra acima da média e condições socio-culturais vantajosas para educar e criar filhos. é essa a tendência lá fora, já que, cá dentro, não há dados...

por tudo isto, se um casal de gays ou de lésbicas decidir casar deve poder faze-lo com plenos direitos e deveres. o facto de optarem por casar, não melindra a dignidade do casamento de terceiros, seja civil ou religioso. não melindra uma sociedade onde não somos todos padronizados - graças a deus! pode ainda chocar algumas alminhas... sinal de que andavam a dormir.

posto isto, nunca fui fã de casamento mas também nunca fui contra. acho apenas que, quem quiser, casa. e ninguém tem nada a ver com isso. o assunto em voga não é para armar debates, é pura questão de bom senso.

sábado

final (19)

o segundo encontro durou metade do tempo do primeiro. falámos demais do 'assunto'. tenho de esperar, continuar 'paciente', mas não apetece. a questão agora, para mim, está no foro da justiça - algo de que, desde que me conheço, nunca abri mão.
o 'assunto' até parece arrumado. não sei da chave, agora que tenho recomendação para resolver e livrar-me disso. não tolero que alguém me diabolize e, como púdica meretriz, se vitimize prenha de maldade. se me atiram às cordas, vai haver KO

é grande a diferença entre distúrbio e doença, disse. entende-lo nada muda. porque não se trata de uma equação matemática, nem de negócio empresarial. é, só, uma despudorada ausência de decência.

no dia seguinte acordei à hora em que devia sair de casa. culpa da constipação fortíssima e do cansaço. uma hora é uma hora e o meu respeito pelo tempo mantém-se. cumpro horários.

diverti-me sim, S. sobretudo com os que as duas disseram. a C. tem uma maneira desarmante de expôr as coisas. claro que os blogues são maioritariamente anónimos - infelizmente, este não é tão anónimo como isso -, e bem que gostaria de pespegar aqui o vosso 'manifesto' desassombrado. aprendi boas histórias e apreendi pequenos egotismos. nada de estranho, pois. foi um dia cinzento sob arco-iris. o caminho é feito por quem dá passos. a imensa maioria é sempre e só espectadora. em tudo.

saí dos carris para o BA. a converseta driblou assuntos triviais. a rapariga do bar ofereceu-me uma cerveja.

o dia está, como dizem os meus patrícios, de 'morriña'. um estado que agrava a inacção. urge encher caixotes.

sexta-feira

final (18)

um dia, dou-me conta da repetição dos pensamentos: penso em ti quando acordo, penso em ti quando me deito. penso como fui infinitamente feliz. e aí páro de pensar ou, pelo menos, tento.não consigo deslindar o nó que se deu, quando se deu, como se deu. o porquê, raramente me interessa. precisava perceber como foi viver uma contradição permanente.depois, descansava desta tortura mental, anuladas que estão as sensações. 'não queiras perceber o que não te explicam' violentou-me sempre a natureza do ser. nunca me conformo.

é certo que ganhei outra consciência. mas isso são contas que não te conto. o mundo lá fora prega-nos partidas e um dia destes dei comigo no terraço de onde costumava falar-te a dar um murro no ar: yes! há telefonemas que nos despegam do fundo e nos fazem sentir desejadas como esquecera ser possível. pode ser uma coisa trivial, mas a vida é o que fazemos dela, a cada momento. e, sim, se for preciso correr riscos, voltarei a corre-los, bem medidos, bem arriscados, com proveito garantido.

continuo a não acreditar no euromilhões, mas acredito na pessoa que sou e disponho dela sem subterfúgios. não perdi a esperança de ter uma casa com lareira e vista para a foz, nem de fazer a viagem às maurícias. um passo atrás do outro, nas contas do presente. irei fazer a road trip que sempre sonhei mais cedo do que esperava... um dia destes, com uma pontinha de sorte, posso até ir viver para barcelona, nova iorque, who knows?
conjugo cidadania sem epifania e versejo cumplicidade com amizade.
sei que todos os caminhos bifurcam. não me encolho, escolho.

quinta-feira

final (17)

um destes dias dei com a notícia do site holandês de apoio ao suicídio. se tivesse capacidade para pensar nas motivações de quem o criou, tê-lo-ia feito. assim foi só a estranheza: alguém que vive preocupa-se em apoiar quem projecta suicidar-se... neste mundo, de facto, a realidade ultrapassa sempre a ficção.

a maneira mais prosaica de a gente se suicidar é andar por aí. uma aglomeração de gente faz maravilhas a quem esteja deprimido. acentua a tristeza e dá logo vontade de fugir, se entretanto não se desmaiar com a clautrofobia social. o cenário mais típico e mais procurado é, em portugal, um centro comercial agora decorado com apelos natalícios.

desde os nove, dez anos que não acredito no menino jesus, que era como chamavamos ao pai natal. por essa altura, duas existências marcaram o fim do natal: a morte do meu avô josé o nascimento da minha irmã. um e outro são, ainda hoje, mistérios encantatórios para mim. o natal é uma época de exageros e falsidades. passo bem sem eles. gasta-se o que não se tem para fazer vista, pensa-se nos tristes egoisticamente, no meio da ceia e bem-estar de que se goza. um dia, vou isolar-me, sem relógio nem bússola, num sítio ermo. alhear-me do mundo, só para ver se no regresso confirmo os piores prognósticos: não há emenda para a multidão insolente.

quarta-feira

final (16)

correr riscos. aventurar-me.
em miúda, trepava à árvores, subia pedregulhos, estampava-me de bicicleta, rachava os joelhos, andava à porrada pelo meu irmão e desmentia quem amesquinhava as aventuras do 'tigre da malásia'.
tom sawyer, h. finn, sandokan, os cavaleiros da távola redonda, e uma série de fábulas muito impróprias para crianças, encheram-me a imaginação. nunca apreciei 'o principezinho'. preferia a louca da 'alice no país das maravilhas'. depois vieram os russos e os franceses e, com a leitura, a escrita ganhou refinamento, o pensamento soltou-se pelas estepes, entre cossacos e samovares. envolvi-me no desatroso império romano, apaixonada pelos gladiadores.
a coisa sedimentou-se uns tempos por volta de 1917, e saltou depois para os anos trinta e a segunda guerra, com os partisans e a resistência de tito. chorei com o holocausto. diverti-me com o prec.

o risco atravessa-se-me à frente e vou no seu encalço. o medo, qualquer medo, é coisa de gente fraca. tenho medo de ter medo, mas passa-me logo.
peso cada decisão friamente e integralmente fora dos estribos. até uma égua sem albarda montei a galope naquele desfiladeiro beirão...
cair, nunca me assustou. o mundo não é para quem fica a lamentar-se como calimero incompreendido, quem se contenta com o horariozinho, do empregozinho e do salariozinho, uma liliputiana medida da indignidade.
vale a pena existir num faz-de-conta de afectos que nunca se entregam?
onde está o risco se nos escondemos da vida? como se sair da exposição nos apagasse da memória ou dispensasse o quotidiano deprimente...
enquanto estamos aqui levamos pancada e ripostamos, seja com o desdém, a indiferença ou a chapada. mais do que pão para a boca, há quem precise de acordar da infelicidade militante.

uma 'enorme gargalhada de desprezo', como dizia o cómico brasileiro, é só o primeiro passo. não me interessa o futuro. o segredo é 'correr' no presente.


terça-feira

final (15)

21 dias. tempo para reverter um vício. voltarei à dra. porque me faltam os químicos. espero os serviços mínimos de justiça.

a verdade é que não há certezas absolutas. só um mar de dúvidas, sombras que abafam a serotonina, muita lucidez, e uma clareza metódica e a prazo. não é o discurso mas a praxis do método, que produz resultados.
não entendo a falta de remorso, não aceito a falta de responsabilidade. quase tudo é perdoável se houver sentido de decência. coragem de mirar o espelho. colocarmo-nos no lugar do outro - gente de bem, que erra.

nunca gostei de centros comerciais. agora é praticamente impossível imergir num desses espaços, sem que um ataque de pânico me atinja escassos minutos depois de entrar. o peito sufoca, o calor transforma-se num suor avassalador, a cabeça despega-se, treme-se sem compaixão, a desorientação é exaustiva. para sair dali tenho de amparar-me a fim de não cair. só lá entro com razões funcionais. ali, outra vez, o velho método salva-me: gasto os cinco ou dez minutos estritamente necessários numa espiral de mal-estar para resolver uma situação específica.


já em pleno bairro, apinhado, sujo e barulhento, não perco o norte. conheço cada rua e cada bar sem perdição. as pessoas não me sufocam embora entupam as ruas. o meu lado judio sobrevém cada sexta-feira, em excessos que antecedem o dia santo. e tenho tanta tralha para arrumar, devia começar quanto antes...
o tempo não é elástico, é titanium.

segunda-feira

final (14)

a lucidez é uma arma de dois gumes. magoa para dentro, fere para fora.
a lucidez é essencialmente incorrecta.
a lucidez é uma senhora inconveniente, na maioria das situações.
a lucidez é imprópria para socializar, com ou sem diálogo.
a lucidez não tem diagnóstico, nem tratamento. é uma rara doença pessoal.
a lucidez é título de livro e milhão e meio de entradas no google.
a lucidez é o condimento mais impróprio para o sucesso da esperteza.
a lucidez não é polida, nem pode ser retocada. é a antítese da cirurgia estética, qualquer que ela seja.
a lucidez é um pau de dois bicos, que não verga mas quebra. e destroi certezas.
a lucidez é a postura dos duros e valentes.
a lucidez desarma.

domingo

final (13)

deus, magnânimo, está inconformado. supõe-se que possa padecer de uma depressão profunda, o que para alguém tão poderoso deve ser absurdamente aceitável.
deus isolou-se do mundo. é a profilaxia com que trata o problema. não se conforma com o descalabro a que a terra chegou. não entende como seguem rumo as suas gentes, criadas por ele, segundo a sua imagem, à sua semelhança.

era suposto serem boas pessoas, nem sempre alegres, porém humanamente decentes. mas nada disso acontece, desde há muito tempo. deus resigna-se a ser ignorado, ostracizado e vilipendiado.
deus gostou que tivessem descoberto água na lua. ele sabe que a água, tão desbaratada, é o bem mais precioso para os humanos.
deus descansa das tarefas que não pediu para ter: regular casamentos, nascimentos e mortes, pecado e absolvição, o perdão a torto e a direito.
deus, em suma, não aceita que falem em nome dele. e que jurem que o creem como se não houvesse agora.

sábado

final (12)

sim, já fui feliz.
não, não me lembro de ter medo.
sim, coragem não me falta.
não, não me arrependo de nada.
sim, desconheço o futuro.
não, não descortino o passado.
sim, é difícil o presente.
sim, posso ser egoísta.
sim, revolta-me a injustiça.
sim, não conheço limites.
não... é, demasiadas vezes, sofrimento.

sexta-feira

final (11)

perdi a conta ao que me preocupa: nada. não traço objectivos, tento manter-me atenta ao pequeno deslize: não esquecer tomar banho, colocar o leite no frigorífico, engolir os comprimidos, responder aos telefonemas que, nos últimos dias, começam pelas oito da manhã e acabam noite dentro - é trabalho, importa manter uma normalidade de competência.
a inacção não dura sempre. um dia, o sufoco acaba com um esgar único.
nenhuma crise é eterna, reinventa-se como a água que corre nos rios... e as margens que violentam o curso, antes que desague.
não me apetece falar com pessoas e passo o dia a fazer isso, profissionalmente.

pensei adoptar um animal (já me é 'autorizado') para garantir a macieza da carícia e o afecto sem cobrança. pedem cem euros que eu obviamente não tenho. estou para lá da conta-ordenado, mais a amortização necessária do empréstimo contraído na derrocada (em que me afoguei sob mãos azeiteiras).
ainda assim, atendo sempre amigos e a tríade que amo. posso não falar nada, pergunto, estou lá.

talvez seja a primeira sexta-feira sem as copinchas habituais. mas estarei a beber, no bar do costume. há a surpresa de um concerto para recordar e, talvez, cinema. se o sol não fugir volto à praia.
o mal-estar alastra. há uma constipação que espreita, uma série de exames médicos a marcar, o desalento - sempre. urge ultrapassar o tempo.

quinta-feira

final (10)

os erros acontecem. os acidentes também. os erros são acidentes evitáveis. os enganos não têm garantia, nem apólice. as palavras valem pouco. os actos validam tudo.

um dia, uma mulher caiu embriagada na linha quando o metro se aproximava. dois automobilistas mediram mal a ultrapassagem. um atleta deambulou pelos carris à espera do comboio.
a noite é propícia a ideias sombrias. o dia também. qualquer hora faz sentir tristeza e vazio numa aparência normal.
as máquinas falham. as pessoas fraquejam. os acidentes acontecem. a morte espreita em cada precalço. num instante distraímo-nos. por uma vez sem engano, mas com visto de passagem.

quarta-feira

final (9)

time to be insane. viver é uma tremenda responsabilidade. tarefa pesada, gente frágil. existir é um pouco mais ligeiro. dispensa uma série de sentimentos que são, afinal, o que fazem do humano aquilo que somos. há o racional, dizem. mas, se analisarmos bem, não há nada de racional ou razoável nesta vida. só uma degustação constante, que inclui pitéus venenosos em paisagens de cortar a respiração.

chegamos ao mundo entre choro e berros, para entrar num caminho sem destino. mais tarde temos de lutar pela logística da caminhada. o caminheiro sente-se, de quando em vez, acompanhado. mas nasceu só e morre só.
existir é completamente prosaico. viver pode ser sublime.

uma amiga diz-me que há um por cento de pessoas que valem a pena. ela tem um sorriso pregado na cara, a energia da escuta, um coração largo e cicatrizes que não exibe. deve saber do que fala.

terça-feira

final (8)

o que nos faz sentir 'alive'?
uma pessoa pode sentir-se viva na medida do que bebe.
viver a testar os limites, diz ela.
a verdade da japonesa Kazu Makino:


segunda-feira

final (7)

o vazio preenche tudo quando não há mais esperança numa redenção.
entra-se e sai-se dos sítios, como se nunca tivéssemos experienciado a vontade de situar-nos. falham-se os mais elementares segundos em que é proibido mentir. e todavia prossegue-se a errância. e assim dámo-nos em passos falsetes de convicções. como se não existissemos como pessoas. é-se actor num cenário de horror. e não estamos no palco. nem se trata de interpretar personagens. é a própria personagem que domina o sujeito. um faz-de-conta pusilânime de soberba. um veneno que se espalha na terra como se o grande alquimista se tivesse distraido no momento vital. não é viável falar 'amor': o que não existe, não é nomeável.

domingo

final (6)

eu queria ter um radar para a essência das pessoas. cheguei a pensar que era a intuição, essa coisa indefinível a que chamam sexto sentido. podia também ser o coração, quando nos diz, no íntimo, que é verdade o que vivemos. a plenitude. enganei-me algumas vezes, mas nunca com as consequências de agora. só consigo adivinhar o trivial das mundanidades: se a é mais infantil, se b é emocionalmente dependente, se c é desmesuradamente ambicioso, se d é imaturo ou apenas um indingente.


ela diz que nunca amara assim. respira essa certeza como as almas gémeas que se encontraram algures na américa do sul, no tempo da arte nova e do tango.

foi só a primeira das tangas, provavelmente. uma peça do puzzle da mentira montada e consumida. o que interessa mesmo é alguém orientar-se neste mundo, como as hienas numa batalha na selva. pode haver prazer e paz e até bondade excessiva, tranquilidade e bem-querer - são 'detalhes' que uma alma demente nunca saberá pesar - sobrevive com a infelicidade diária. pode-se descambar numa dor infinita, descabelar o mais equilibrado dos seres... a arquitecta do sofrimento não tem palavras que o expliquem. dá-se conta e omite, não se dá conta e mente. vive e nega e vive e nega, o que experimenta em razão, emoção, corpo e espírito. nesse ponto, alguém se pergunta: meu deus, porquê eu?!


é preciso ir além para encontrar a resposta.

sábado

final (5)

não foi preciso muito para chegar a este estado de fenação.
colhi uma doença quando a adolescência chegou. escapei da morte ou da tetraplegia. penei pela salvação anos a fio. cuidei-me, cultivei-me. sobrevivi à entrada no mundo dos crescidos. arranjei trabalho. uma família. dispensei a vidinha. despedi-me do emprego. procurei um pouco de felicidade. paguei um preço. era um livro aberto para os outros. conselhos, ajudas, apoios. finei-me em tanta empatia.


ontem "não faças asneira". hoje, "se pudesses escolher, o que farias?" crianças, respondi. trabalhava para elas, com elas. foram os tempos mais felizes: fazer pinturas, rasgar revistas, fazer artefactos com jornais, teatro, bonecos de trapo e jogos de rua. quando chegar ao guichet de são pedro, vou perguntar onde é o infantário. um sítio com gente de verdade.

sexta-feira

final (4)

a linha que separa a loucura e a sanidade é tão ténue que ninguém vê. inventaram-se os psiquiatras para a régua e esquadro da marcação da fronteira. a franquia entre a vida e a morte é mais evidente. não sabemos porque nascemos, sabemos sempre porque morremos. a vida não se escolhe. aceita-se, apenas. a morte, sim. ou porque nos portámos mal em vida, com excessos que danificaram a saúde, ou porque a idade fez o seu desgaste, ou porque decidimos. a verdade é que ninguém pergunta ao óvulo e ao parceiro se quer tornar-se gente. mistério de deus: a coincidência. uma subtileza do eco-sistema, nada mais.
ninguém nos pergunta se queremos ser gente. e muito menos nos ensina a ser humanos - aquele nível a seguir ao animal, dizem.
ninguém devia interrogar-se "porque se morre". mas envolvemo-nos sempre em dúvidas meta-existenciais sobre "porque se mata". é bem mais explicável que o ter-se nascido. vida ou morte são fronteiras que não exigem passaporte. apenas vontade e sorte. talvez um pouco de coragem, talvez um pouco de loucura. na verdade, isto anda tudo enrolado. só as cabecinhas tontas querem encontrar um sentido. que não existe. nem para viver, nem para morrer.

quinta-feira

final (3)

este é o país onde funcionários públicos cantam em hino uma versão we are the world - patética. dizem que entram e saem às 9h e às 12h30 e depois às 14h e às 17h30. trabalham muito e ganham pouco e nunca têm excelente! (ide ver ao youtube, e pasmai!). eu nunca trabalhei nesse horário e nunca cantei um hino ao funcionário.
este não é portugal, ditosa pátria, minha amada, mas o país onde o pessoal se "orienta" chulando o estado e o parceiro do lado. "dê lá um jeitinho", tão pequenino, oh faz favor!
teria emigrado há uns anos não fosse a obsessão outra. agora, já é tarde para chegar aos antípodas.

todos os dias faço uma hora de transportes para atravessar a cidade. cada passageiro leva a sua história numa mochila ou num telemóvel. alguns pensam, como eu, o que faço aqui? e ficam, pendurados no varão conspurcado de suores vários até à paragem que lhes convém. saio sempre umas quantas paragens antes do destino. não é possível aguentar tanto tempo num autocarro, de cara encharcada. às vezes, preciso de ir comprar pão ou tabaco. olho para a loja e desvio a minha tristeza da mirada indiscreta dos empregados. fica para outro dia.

cumpro os mínimos em casa, porque há encargos e um rol de tarefas que ninguém me 'orienta', como sempre.
desorientada embora, faz-se o que é preciso no imediato. e chora-se compulsivamente e muito, e não se quer falar nada com absolutamente ninguém. como se passasse uma certidão de óbito ao exterior. como se entre as sete e as oito, o mundo fosse acabar num poço sem fundo. ninguém se queixava. talvez tivesse forças para bater uma palma seca, e pedir bis.

quarta-feira

final (2)

um dia, vários dias, a cabeça tem vida fora do corpo. pensa, vagueia, esvazia-se, de modo próprio. é a autodeterminação da mente. estás doente. mas disfarças bem, se não acordas com olheiras do tamanho do vício de viver.
e quando vais dormir, a cabeça vive o que lhe apetece. dá estímulos que fazem o corpo agonizar. pegas nos barbitúricos, um, dois, três para ires ter com morfeu. mas passas-lhe ao largo. uma, duas, três horas e tu vigilante. cinco da manhã e despertas de supetão do sono que não dormiste. um vulcão de imagens e memórias fazem-te chorar, tremer, encolher, fugir.
percebo que a linha está perto do fim. lá, não há precipício algum, nem tormenta, nem emoção, abraços, nada. não há linha de água, não há redenção. quer-se um cadáver bonito, mirado pela curiosidade de estranhos. os próximos vigiam o remorso da perda. os teus amores não perdoam a saudade impingida. são os danos colaterais das partidas.
depois do fim da linha, há paz. não há anúncios sobre produtos contra a queda do cabelo, nem medicamentos para reforçar as defesas. não há doenças, nem contas para pagar, nem compromissos. é uma terra de ninguém, possivelmente no espaço sideral. não me esperam impostos, nem trabalho, nem amigos, nem quinquilharia. é marcar o fim da linha. egoísmo con sentido, se passaste anos a viver para os outros. fazes desse o teu estandarte de liberdade. e a última atitude de bondade, também.


p.s. - a grande vantagem dos blogs é permitirem calendarizar a publicação de posts ad infinitum...

terça-feira

final (1)

sempre soube que morro cedo. agora, nada importa. há duas semanas que era suposto começar a ficar melhor. nada disso. cada dia é mais penoso. o descontrolo imbecil das emoções, para lá do corpo e do intelecto. três horas de terapia, em vez de uma, não chegaram para o efeito. não sei se consigo esperar os três meses necessários para estabilizar. tenho muitas dúvidas de que seja um projecto viável. agora, não sei nada. a doutora esforçou-se. e eu tenho-me portado como é suposto: tomo os medicamentos, trabalho certinho, vegeto. é o que é. nada.
hoje comecei a fazer a minha banda sonora final. terá o "funeral" todo, e mais uma dúzia de canções da minha vida. sei que quero ser cremada. e quero uma bandeira arco-íris, mais o símbolo feminista - tarefa que alguém acautelará.
antes disso, se nenhum veículo me apanhar sonâmbula junto a uma passadeira com sinal vermelho, tenho mensagens a escrever: três pedidos de perdão, incomensuráveis, que nunca serão concedidos. sei que vão sofrer injustamente.
a vida é madrasta? pode ser. mas é mais qualquer coisa. deselegante, injusta, perversa, torpe, sem bondade, sem lisura, sem sentido.
a obsessão do sentido perde-me. e não há sol.

the fight song

segunda-feira

final

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece..."

clarice lispector

some things...

everything must change

domingo

antónio sérgio

não há muito a dizer. cruzamo-nos na rádio, anos a fio, a horas tardias. escutei-o, e à mulher, em programas fantásticos. é nesse ofício alguém verdadeiramente insubstítuível. um tipo de aspecto duro e muito cavalheiro, ternurento de um modo próprio, simpático para os companheiros, uma enciclopédia humana da música do futuro - sem concessões. quem gosta, aprendeu muito com o que ele divulgava.
aos 59 anos,
morreu o antónio sérgio, a voz do lobo.
rip, as always

f**cking song

quinta-feira

wake up



arcade fire - há dois anos, em julho, junto ao trancão foram um enorme privilégio... a única banda que justificaria horas ao relento para conseguir bilhetes para um concerto, assim eles voltassem a reunir-se.

quarta-feira

terça-feira

2


i hope i don't fall in love with you + no one knows i'm gone
[tom waits]

lágrimas de eros



... relação entre desejo sexual e morte, eros e tanatos, através da arte, mostra-se em madrid até final de janeiro 2010. os doze capítulos de "lágrimas de eros", incluindo as obras plásticas expostas, podem ser espreitadas no site do museu.

segunda-feira

'tá diferente

tampas com estilo

é já na quinta-feira, na sede da umar, o seguinte workshop utilitário:

Oficina: Tampas, dar e receber. Dizer "não" sempre que é preciso.
29 Out 20h Sede UMAR
Dizemos “não” sempre que queremos? Hmm, talvez não.. “Dizer não” é importante e vital, mas “dizer não” em todas as ocasiões necessárias é muitas vezes difícil. Há vários mecanismos que tornam o “dizer não” difícil, como por ex., o medo de não sermos aceites, pressão social, o medo de represálias, ou mesmo condicionalismos culturais de vários tipos.
O “dizer não” é importante quer em situações do dia a dia, no trabalho, família, relações, quer em situações perigosas para a integridade pessoal. Neste workshop não vai haver receitas mágicas, mas vai tentar-se expor o problema em termos simples, discuti-lo convosco, e fazer alguns exercícios em grupo que permitam a cada uma reflectir e encontrar a solução mais adequada.
A oficina é aberta a todxs, mas foi pensada para e com um contexto queer (ou queer-friendly) e feminista.Mais informações ou inscrições, contactar
antidote@imensis.net e dijk@walla.com.

domingo

rebelião

o mude inaugura quinta-feira,
29 de outubro, a exposição
'é proibido proibir' -
os anos 60 e 70 na moda e no design
(patente de 30.out.09 a 31.01.2010)

grátis

......
"aqui, desinteressadamente
tudo é de graça
a pele, o sexo, o travesseiro,
a ternura, o beijo, a água e o sono

movimentos perenes
falam línguas laicas
o olhar, o toque, o prazer
o tempo passa feito lava
o riso redime qualquer pecado

aqui,
o sonho é heroicamente sexy
o amor é sensualmente livre
o descanso é pagão, o espasmo é sagrado
e amar é grátis"

quarta-feira

passageir@

"somos uma espécie de passageiros.
não adianta dizer que a viagem nos aborrece.
podemos entreter-nos com a paisagem.
passar o tempo com as memórias.
sair abruptamente do veículo.
saltar dele em movimento.
chocar inadvertidamente.
sucumbir à imprudência do condutor.
podemos distrair-nos até à próxima estação.
experimentar descer em apeadeiros.
a viagem prossegue - independente do passageiro
."


sábado




lettie, 1ª parte do concerto de peter murphy em portugal [tb no myspace]

tudo é relativo

acordar com o nariz a sangrar. eis uma evolução muito positiva.

sexta-feira



the lodger [tb no myspace]

terapia

pode alguém montar o puzzle, se a caixa não foi aberta?

quarta-feira



dirty epics [tb no myspace]

muros

nunca gostei de muros. onde cresci, o topo dos muros estava cravejado de vidros. a ideia de trepá-los, arrepiava. ninguém se atrevia. lembro-me que preferia os portões de ferro, as cercas de arame ou as fragas - uma fraga galga-se.
agora dedico-me à construção de muros. estou ainda na fase das fundações. primeiro, esburaca-se para ver a consistência do terreno. é nesta fase que se pode encontrar o solo movediço. depois, vigas de aço e muito cimento.

como todos os muros, esse também será derrubado. mas até lá é um desperdício de betão armado. nada disto faz de mim uma expert em construção civil. de engenharias, não percebo nada.

terça-feira

maria carolina

...é o amor em pessoa_inha. foi feita com/por amor, é alimentada de amor.
nunca vai poder ser uma pessoa preconceituosa, e com isso transporta uma grande vantagem.
ela vai ser aquilo que quiser. atrás dessa liberdade, durante e depois, está o amor delas(- -), mais um grupo de amigos e tias.
a maria carolina tem o fascínio dos olhos sorridentes e vivos, que miram as coisas, a comida, os animais, os outros, de forma pura. sei que tem uma estrela que a ilumina e nunca será uma má pessoa - embora possa ter os seus momentos de revolta, porque ninguém cresce sem eles. mas como o amor é uma constante da vida desta criança, mesmo quando faz traquinices que levam ao quase desespero materno, ela é uma miúda feliz. recebe uma repreensãozita como recebe mil abracinhos, milhares de beijos e distribui, ela própria, milhões de sorrisos. e se adora cócegas na barriguita, retribui com risos em cascata que arrepiam de alegria qualquer alma dorida. e cada sorriso dela, ou vergonhita infantil, é espontânea - não serve para medir o efeito ou a dimensão dos afectos.
a maria carolina é a prova de que os sonhos, todos os sonhos, têm de ser consistentes e trabalhados para criar uma realidade optimista.

segunda-feira

the sweetest thing *



* camera obscura
...mas quando temos um concerto desta banda em portugal?!

domingo

trocar as voltas ao sono

entre as boas das coisas assim-assim pode estar um filme daqueles que nos faz pôr vida e morte na perspectiva real [my sister's keeper] e uma conversa confidencialmente amistosa.
é por isso que aos amigos - e a toda a gente, incluindo-me - desejo sempre a mesma coisa: que recebam a dobrar aquilo que fazem. bem-[h]ajam.

sábado

amplos

...este sábado à tarde, apresentaçao pública em lisboa: foi bom ver tantas organizaçoes a apoiarem a "amplos". a associação de mães e pais pela liberdade de orientação sexual poderá ajudar doravante muitas famílias (entre os testemunhos, o dos dois transsexuais presentes foi dos actos de coragem mais marcantes que já presenciei).

sexta-feira

don't look back


o título deste post pode ser, espreitando o google, um jogo de computador, um documentário, títulos de músicas de vários grupos ou até uma ficção, no caso 'ne te retourne pas' - título de um dos filmes da festa do cinema francês, este ano em várias cidades do país. pela sinopse e pelas actrizes - sophie marceau e monica bellucci - este filme de marina de van parece-me um dos mais apetecíveis. o melhor é consultar a programação e desfrutar as fitas.

quarta-feira

democratizemos o código de barras

o google lembra: hoje faz anos que nasceu o código de barras.
eu só peço que se googlize o código de barras. sonho com o dia em que o código de barras me simplifique a vida. por exemplo, vemos uma pessoa e nada sabemos dela, só as primeiras impressões. e como não há uma segunda vez para causar uma primeira impressão - já dizia alguém - é por aí que nos orientamos. está mal. um código de barras simplificava tudo: mostrava-nos a proveniência e a natureza do ser, a sua durabilidade e até o local apropriado para o armazenar. nunca se correria o risco de encaixar conteúdos pela aparência, ou de sermos seduzid@s por aparências de conteúdo diverso do que se intuiu.
com código de barras, o mundo podia ser mais parecido com uma manada de zebras mas, convenhámos, seria incrivelmente mais simples.

sexta-feira

msg para o fds e para os outros dias



[bela mensagem, simples, evidente - vídeo sacado do facebook]

terça-feira

green day

há muito tempo que não me entravam tantos decibéis pelos tímpanos, nem havia tanta gente tão perto... e eu lá atrás, 25 anos antes - talvez - noutro pavilhão, com outra banda punk, outro amor comigo e o mesmo espírito de sempre.

p.s. - 'odeio' as segundas-feiras que são o dia verde para semanas lixadas...

domingo

everything with you

The Pains of Being Pure At Heart "Everything With You" from Slumberland Records on Vimeo.

das eleições

...com quase 40% de abstenção, quem não vota, não merece a cidadania.
...com certas mudanças no programa eleitoral, o ps em maioria-não-absoluta pode ser finalmente coerente com a esquerda que reclama ser.
...em maioria-não-absoluta, voltaremos a ter legislativas antes do prazo?
...e, agora, a arrogância vai estar disseminada em várias bancadas.
...em quem terá votado, afinal, aníbal antónio cavaco silva?
[intuo que fez campanha para se reeleger]

terça-feira

to my brother



the organ - Grab that Gun (2004)

quinta-feira

lido ali

"sinto-me uma folha sobre um lago: mantenho-me á tona, e sei como o equilíbrio é frágil".

sábado

terça-feira

same-sex marriage

não é preciso ser a favor, basta entender [o que é hoje o casamento] e aceitar [que haja quem queira optar]. o documentário 'tying the knot' é exemplar e está disponível na net (+- 01h30).

cinema aí

falta pouco para o queer lisboa festival. é de 18 a 26 de setembro, no sítio habitual. a programação está disponível dentro de uma semana.
p.s. - a minha agenda (a)guarda sacanas sem lei, o novo tarantino. depois ainda estreiam abraços desfeitos, o mais recente almodovar

domingo

sem eira, nem beira

...ou "sans toit ni loi", título de um dos filmes de agnés varda, que a própria evoca no espantoso "as praias de agnès"(ver ípsilon). se abríssemos as pessoas, encontravamos paisagens - diz ela. no caso da cineasta belga, porém, encontraríamos 'praias' - e como são fantásticas as imagens e os enquadramentos que ela filma em praias... mas este não é um filme balnear, mas o revisitar de um percurso pessoal, político, musical, cinematográfico, artístico. um filme autobiográfico, feito a respigar memórias.
um conforto esta história.

sexta-feira

fiery furnaces



no ípsilon/público apresenta-se o novo disco "i'm going away"

quinta-feira

quarta-feira

belo cenário, grande noite

2 de outubro, 23h30, lx. instituto superior de agronomia, lesboaparty 3ºaniversário

... a perfeita despedida do verão

terça-feira

a noite é o reverso do sol

a nasa vai estudar o sol. meta: saber de que forma o sol influencia as nossas vidas. infelizmente, a nave não é tripulada. [notícia i]

sexta-feira

'-)



ramones - baby, I love you

quarta-feira

:(



patti smith's - because the night

sábado

.. .. ..

« eras a parte boa da minha vida.
sem ti não há sol, 40 graus não se sentem no corpo, caminhar sem rumo não doi, mesmo sob o sol impiedoso. não vale a pena fugir para a sala de cinema, não há mar que me acalme. não há vontade de escrever, arrumar, olhar.

não há fome, nem sono. nunca. não há futuro algum, nenhum presente. não há sequer vaguear. não há sentidos. só há dor grande e sem fundo.
sempre disse que não há mundos perfeitos. nunca houve. agora não há nada de bom - só o que sinto, sem ser a troco da tua felicidade maior.
podíamos ir para lá dos pirinéus, podíamos ficar a resmungar diferenças. esperam por nós a escócia, florença, nova iorque. valeria sempre a pena. valia a pena ter cometido os erros que cometi, as ingenuidades todas, a perda nos afectos mais viscerais. não tinha importância a penúria da vida, a falta de escrúpulos, as chatices diárias. eu sabia que tu me acarinhavas. e completavas com a tua raiva e a tua fé as coisas mais baixas que acontecem. passou a paixão, é certo. passa sempre, sabias? comecei a desculpar tudo, mesmo as irracionalidades mais básicas, as birras mais infantis: todas as coisas que não são realmente importantes. pesava mais o que sobrava de bom. o optimismo pesa sempre mais quando o caminho se faz acompanhada. pessoas como nós têm obrigação de construir. ninguém é feliz a destruir, mesmo que se muna de argumentos lógicos. ninguém dá na medida exacta do que recebe, sei disso.

eu sei das letras e tu mostras-me as cores em todas as pautas. e assim faz sentido. para mim, nenhum conta-quilómetros me cansa se me levarem longe contigo, até ti. e perco-lhes a conta, não me importo. agora, simplesmente, não há momentos felizes para mim. e para ti?
és a (parte boa da) minha vida. ainda és? »

segunda-feira

um intervalo no zen

"bate com o murro no balcão: vai ver que és melhor e mais depressa atendida!"
recebi o conselho e passei à prática. comecei a negociar com o fornecedor de telemóvel, depois com o serviço de net+tv, e por aí fora. nalgumas coisas, há que "dar tempo ao tempo", noutras é melhor pôr logo tudo "em pratos limpos". um murro na mesa pode ser um método socialmente profilático. essa é que é essa! a mesa (ou o balcão) não se queixa, a gente sai do marasmo do tolo, e ninguém se aleija. bem hajas, m***, pelo conselho :-)

é todo um programa para a semana


gelado de bolo de coco*.
a fidelidade numa colherada.
sem remorsos, nem complicações.
espera por nós no fresquinho.
deixa-se comer. e pede mais.
fazemos a (nossa) vontade.
deguste-se o coco.
moderadamente doce.
suave e refrescante.
a fidelidade numa colherada.
sem pecado.
simples.

[*pingo doce]