segunda-feira

anti-status-quo-vadis

e então, pensar maduramente que há coisas a decidir de uma vez por todas:
não esperes de outros o reverso do que fazes; não declares o profundo sentir, nem expresses as emoções em roda-livre; não descures o teu eu, e só o teu, eu, só; não antecipes as certezas amargas, mas não faças concessões para que tas oferendem; não fales, não fales, não fales; não opines, não azucrines, não respondas; não há ninguém ao teu lado, só (no) passado; o futuro é um caldinho de expetativas, não esperes, não conjetures, não desejes; não há presente mais que perfeito, nem imperfeito, nem composto; os tempos verbais não mudam na língua portuguesa; podes comprar um dicionário de verbos, e folhea-lo todo, mas não te percas com os reflexos...concentra-te no presente indicativo e descansa por vezes com o gerúndio, ...gozando.


determina as tuas regras, para ti e para o teu viver social; nada vive - parece - sem contrapartidas, nem a amizade, porventura nem o amor, e já nem tens idade para te apaixonares. se um dia te ocorre que no dolce fare niente e no calor do afago encontraste a tranquilidade destes tempos, desengana-te: tens aí um problema, porque sem controvérsia não há - parece - enamoramento, afeição, o que for.


termina ainda o que não consegues concluir, suportar, gerir, e isola-te com os seres que não te interpelam senão para uma lambidela. destila a dor e o desgosto em água quase tudo e cloreto de sódio, mas fá-lo a solo, não vás criar uma poça onde te afundes.


a uma dor que sintas na mão, no braço, no peito, na cabeça, lembra-te que há dores maiores que não doem em lugar nenhum e estão sempre presentes: aquela que vem da ausência permanente  e definitiva de alguém que amas, ou aquela outra que advém da doença matreira e persistente que te corroi sem perdão; e há as dores da desatenção, da falta de trabalho, do desencontro constante, da desorientação pessoal, da rotina. mas muitos sobrevivem com estas e uns poucos traçam-lhe um  fim 'egoista'. ora a escolha, em última análise, será tua.
por fim, cuida-te, cuida-te de fora, cuida-te para dentro, cuida-te na bolha de segurança com outros seres, cuida-te contendo a franqueza, segurando a vertigem, respirando fundo: bebe o sol quando ele aparecer, e controi reservas de sorrisos malandros, para ti, sozinha.

quinta-feira

amar alguém só pode fazer bem



o mais recente cd de marisa monte... é uma delícia!

sábado

não há mundo para estas palavras

um dia, se lhe dissessem com os olhos e com os lábios amo-te, um dia apenas que fosse, ela sentiria redimir-se dos golpes de azar, das vezes que errara, do muito que deixara por fazer, e das declarações silenciosas dela própria quando diz amo-te, pronunciado apenas uma vez sem bom senso.
há palavras que golpeiam e outras que curam, ou serão as mesmas, conforme se dizem ou se omitem?
há palavras que são pura expressão do sentir, percepção, corrente de ar, tropeção, refúgio, nudez.
certas palavras perdem o tempo, como nos perdemos no tempo de minudências infelizes.
um dia pode valer por mil dias, e um segundo trazer-nos de volta à superfície.


ps - dia internacional contra a violência doméstica. não há palavras que possam resumir o que penso do assunto. só repugnância e vergonha.

domingo

coisas da idade

menos tempo, mais rugas, menor visão, maior acuidade, felicidade simples, doenças graves, precariedade, isolamento, dores avulsas, alegrias efémeras, doses de paciencia, impertinencia casuística, revolta racional, afectos controlados, instantes de insensatez, procrastinação, desvalorização de tudo em medidas assimetricas para cada assunto.

quarta-feira

declaração de amor

"posso ir dormir hoje no quentinho do teu quentinho?"

sexta-feira

a preguiça é descomunal

agora, finalmente, a expressão "vemo-nos gregos" faz sentido.
a lua é negra e carente.
o inverno verdadeiramente molhado, chega mais cedo.
o outono é quente.
a cabeça não tem ideias claras, aliás não tem ideias.
há demasiada gente ocupada em degladiar um poder que não existe.

o mundo parece um lugar sombrio sem fim.
não há luz ao fundo do túnel, que ninguém penetrou.
todos os apetites vão para coisas futéis: sexo, silêncio, solidão, séries.

segunda-feira

vagueai inconsoláveis

ela nem tinha reparado nisso, mas metade da sua vida activa estava cumprida. o resto seria um extra esforçado e esticado prolongamento de sobrevivência, se não morresse cedo. quando encontrou esse caso, fazia mais um teste ao seu poder de sedução, um desmame do jejum sexual. havia uma incógnita, sim, mas feita de curiosidade, desejo e um pequeno fascínio intelectual. a prova do gosto surpreendeu e começava a prende-la. as pessoas podiam entender-se e respeitar-se e terem a sua vida calma e aprazível. podiam flirtar, e deliciar-se com coisas gostosas, e ter tempo para ter tempo partilhado. e podiam entender-se no intelecto e no leito. e podiam apreciar-se mesmo se a economia do país se deprecia. e nada parecia rimar com acidez ou segredo. que coisa mais estranha!
senhora de si, achou irreal essa compostura de amante amada. quanto mais me prendes, sem que me prendas, mais te mostro que não estou captiva. e foi então que soltou o gnomo feito da matéria comum dos seres que negam o bem do bom da vida. não há doenças, nem acidentes, nem pontos fracos, só uma inaudita busca pela frustração.
porque se é bom, tem de acabar, não é?

domingo

o truque

se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí.
tenho a madrugada como companheira.
eu estou por aí...
fernanda takai canta isso. encanto-me com ela.

venezia


tem a fama de cidade para amantes ou apaixonados. mas a fama é sempre um rótulo sem substência. transpira história e turismo, tem água por todos os lados, italianos irritados com tantos turistas, gondoleiros mafiosos, concertos diários em igrejas em que tropeçamos a cada esquina. pontes e canais, praças e ruas sem nome, apenas enigmáticas designações: ponte do diabo, calle da senhora, rio terá del biri, pequena rota dos assassinos. um vago cheiro a mofo e um outro a esgoto quando anoitece. não há carros, muitos barcos. há alpendres pendurados sobre telhados de cinco pisos, roupa estendida, pequenos jardins, escassos metros quadrados pendurados numa felicidade de céu. vias estreitas que não deixam ver o sol, e uma luz superiormente incandescente que adormece saudades que não sentem lisboa, a cidade branca. peças de arte onde menos se espera, mercados de frutas em canoas grandes, nenhum sem abrigo, nenhum pedinte, óperas todas e obras em edifícos seiscentistas, onde vivem familias e cães e escritórios de advogados e ateliers de arquitetos. não há muitos empregados veramente venezianos, só os donos das cantinas e tratorias. uma subtil invasão da indochina abastece os locais de repasto com empregados pequenos, morenos, vagamente asiático, num italiano perfeito e uma displicência de serviço prestável e perfeitamente standard. paga-se 50 centimos para atravessar o grande canal em gondola, não se paga nada para andar nele, para trás e para a frente, num vaporeto que pára em todos os apeadeiros. tudo é perto de tudo e simultanemante vasto e distante, porque nenum mapa é explícito na localização da rua... contem 5394 em Canaregio, um dos vários bairros afreguesados, e estamos na casa de corto maltese...mas para lá chegar há que dar uma volta ao mundo. e na praça de roma, sempre dela, é o centro das partidas e chegadas para esse imenso puzle. veneza.

não se vêem amantíssimos namorados, nem casais celebrando bodas, só gente que deambula, ou espera nos clássicos locais do hall da cidade: o passo ducal, a basílica e a torre de são marcos. há demasiados americanos, e os asiáticos ricos em grupos disciplinados. há lojas com astesões dentro, a fazer peças únicas de couro, ou papiros quase fora de validade. uma italiana é mesmo curta, a melhor custou 90 centimos mas a regra é andar pelos dois euros, há gelados em cada esquina, baratos e bons; o esparguete é sempre al dente, o chianti é ácido, e o melhor tiramisu está lá. as máscaras carnavalescas são infinitas em variedade de materiais e rostos, há contrafação por subsaahrianos que fogem lá como cá ao vislumbre de policia e há venda ambulante de roupa made in italia. do aeroporto toma-se o autocarro cinco para a praça que é o interface de transportes. meia hora depois, lá mesmo, apanha-se o vaporeto com mais cento e tal pessoas para a ribeirinha san marco, não há muito para escolher, só duas linhas: 1 e 2, ou N se for entre a meia noite e as três ou mais da manhã. e o silêncio negro esconde todos os fantasmas do passado nos becos de uma cidade arrancada à idade média, ao renascimento, ao futuro, quem sabe...

segunda-feira

vai e vem


aprende-se que não se modifica ninguém.
ensina-se que aprender é uma constante.
a curiosidade alimenta, o trabalho dá solidez.
aprende-se que viajar dá vida. parar mata sempre.
que morremos desde que nascemos. que só paramos, quando morremos.
que ter paciência é sinal de sapiência. que a impaciência é espuma de contrariedades.
que há passos à frente e para os lados, mas ensaiar marcha-atrés só consome tempo.
aprende-se que nada é garantido, nada definitivo.
mas se não há bem que sempre dure, também não há mal que nunca acabe.
que nem tudo depende de nós, que se não depende não o mudamos, mas mudamos o destino conforme nos comprometemos. que ouvir e calar é oportuno, mas calar e nem ouvir é incauto. aprendemos de forma terrível e sem entender, e esquecemos para aprender outra vez e esquecer de seguida. e nada muda, tudo muda, e permanecemos ingénuos e espertos, consoante o adn emocional do nosso mapa pessoal.

sábado

goodbye rem


loosing my religion - REM

...pode perder-se o que nunca se teve?
as músicas deles, por exemplo, permanecem - embora eles se separem.

quarta-feira

levante



Hindi Zahra - Stand Up

conheçam-na e apaixonem-se


Hindi Zahra* - beautiful tango

* 09.11.2011, @ lisboa

sábado

espelho meu

de vez em quando ocorre que a transitoriedade dos dias pode ser mesmo infinita. o que hoje é prazer, logo mais pode descer aos infernos e até aquele ser que nos acompanha sempre pode desgostar de nós. nesse instante, que vale ir ao espelho e perguntar a mim que ando a fazer ao eu? nada. nada de resposta, nada de nada.
cada caminho faz-se de escolhas e consentimentos, que é outra maneira de não escolher escolhendo. e pelos meandros do transitório, procuram-se certezas, pequenas certezas, irrelevantes, irresponsáveis e irregulares. irritantes certezas que consomem e nada somam ao nada que há. de todas as incertezas, a menos falível é o falhar ao tentar e a mais segura de todas o não falhar se não tentar.
tenho horror ao vazio, e ele acolhe-me e consola-me porque é seguro, previsível e constante.
somos nós próprios e as circunstâncias, já dizia Unamuno.
tentar atravessar entre dois arranha-céus no equilíbrio dos inconscientes, faz de nós menos loucos? ou somos mais sãos porque apesar da tentativa conhecemos o risco da queda, mas não a gravidade da fratura, nem a dor que se sente?
tentar sim, até quando? enquanto o medo não for mais forte que o provável degredo.

terça-feira

o farol

uma pedra, depois outra, uma pedra maior, uma outra oval, uma pequenina pedra, e muitas diferentes. com elas fez uma pirâmide irregular. acendeu uma vela, para ter a luz que faltava naquele monte de pedras desordenadas. juntou um pouco de areia em busca da coerência. acendeu uma pequena fogueira com gravetos sem consistência de lareira. por vezes, pensava que tinha um farol, tantos eram os naufragos que procuravam a pálida luz.
e de repente, na incoerência da construção que era a sua vida, sentia o vazio da empreitada. e acendia outra vela, procurando um aroma conveniente, indolente. os novos naufragos chegavam sem-licença de marear, em busca de enormes orelhas e boca pequena, esquecida de fala própria. e neste faz e desfaz espaçado, o tempo não contava para nada, senão fugir-lhe debaixo dos pés.

segunda-feira

Beginners - Official Trailer [HD]


somos sempre principiantes...

um filme que -dizem alguns - pode ser um dos premiados nos próximos óscares.
chama-se 'beginners' e em português é exibido nos cinemas como "assim é o amor". para mim é um grande filme - não pelo tamanho, nem pela carga dramática, não por estar especialmente bem filmado ou montado, não porque vive de uma espectacular história. é cinema terno, triste, optimista, cosmopolita. o cinema é um bocado da vida, que não é nem apoteótica nem suicidária. 'beginners', de mike mills, está classificado como drama-comédia. por aqui já se vê a indefinição. o que realmente interessa em "beginners" não é a moral da história, mas justamente a falta de moral na vida - nas grandes surpresas ou no início de qualquer coisa.

"when it comes to relationships, we’re all beginners."




sexta-feira

ponham o amor na constituição, gratuito e tendencialmente universal

é condiçao do amor ser
transitório
provisório
ilusório
peremptório
e, ao mesmo tempo, é tudo
fecha o mundo, dá-lhe um sentido que rima com sofrido

se não vivessemos a esperança do amor
definitivo, consumido, competitivo, restritivo
...não seríamos tão profetas de uma miraculosa miragem de felicidade

queria um amor para cada pessoa,
gratuito, talvez fortuito,
na crença de que os dias fossem mais toleráveis e aprazíveis

não sei se o amor é fodido, mas bem que podia ser!

quarta-feira

osculando atitudes

coisas que desgosto... sempre, ás vezes, um poucoxinho grande!... dita-duras, do pensamento, do pré-conceito, estreito e nhurro. falácias ditas com convicção, convicções cruzadas com despautério. e declarações de princípio, como se a plateia estivesse à beira do precípicio, em risco fatal, numa queda certeira, salva apenas pelo amén. e as tristezas várias quando lhes morre a esperança, na fluidez da crença, uma tremura insana, o antes assim. o prejuizo da não-desculpa, o esquecimento d'obrigado, os seres alheios à delicadeza do trato. e os favores, favorzinhos, vá lá, dê um jeitinho. a falta de atenção na repartição, a impaciência militante, o fulgor da inabilidade, o arrojo imaturo, a flacidez das ideias, e aquele gesto tenebroso do assentir com a cabeça, qual inerte cachorro de porcelana. e os pressentimentos tão fortes que vão direitinhos ao que queremos ver acontecer, porque se a realidade não se muda, altera-se a percepção que dela temos e o mundo molda-se como adivinhamos. é tudo tão mais fácil assim! com ultimatos, berros escritos, sussurros cuscuvilheiros e armadilhas rasteiras. e com rezas, de igreja ou de partido, mudam-se os símbolos intocáveis e continuamos carneiros num rebanho. e depois, há ainda a força das matilhas, das manadas, das tribos, um disparate de declarações e confusões, bicos-de-pés e desnorte. chiça! há quem não se enxergue como a poeira num pedaço de areia, nano-nano-dimensional face ao mundo real.

osculando palavras

coisas que gosto de gostar... aquela persistência tonta de não desistir e concretizar, tecnologicamente falando! a mania de não dar valor ao valor que outros dão, porque nada do que é dado é valorizado! a coragem de não ter limites no acreditar que é possível, por mais vozes que se façam ouvir num coro grego trágico, que é cómico sem o saber! a futilidade de não ver o perigo, muito menos medi-lo, pesem as experiências e as hordas de tolos que se levam demasiado a sério, como se o mundo cuidasse de temer fátuos poderes! a vida que golpeia o destino, que sisudo vira alegria, e soma prazeres e deambulações descomprometidas, ora tristes ora alegres, sempre vitais! e os seres de luz, luz parda por vezes, luz branca, luz laranja, ainda assim, luz que não se paga nem tem preço!
o medo é um complemento vazio para o verbo que ninguém sente. ter não é ser.
gracias a la vida, que me ha dado tanto!

domingo

desviadas e flor de lótus

entreabrem-se, matreiros e delicados, até que o desfiladeiro me toma de vertigem. são ténues as vontades racionais, somos infinitamente mais animais que gente - mesmo quando se trata de lábios ou genitais.


nesse instante, digitalmente equilibro-me entre o desejo e a necessidade de mergulhar num mar desconhecido e tortuoso, sem molhe de salvação. sou volvo em vulva.o toque leve dos dedos percorrre suavemente o franzido onde me perco. a cabeça mantém a distância prudente que impedirá a rendição do amor. é o mínimo de decência que meço. não posso apegar-me outra vez.


segundos de compasso sem espera.vejo que não vi um rosa-míscaro como o teu, imagem tão bela, um encantamento de olhar.



soerguo-me ante o despontar, concentrada no risco de asneira que me apetecia verbalizar.


ele, flor de lótus - é? - um anel concêntrico e vermelho pálido, saindo do esconderijo quando respiras ou resfolegas, quando te acaricío levemente. sem odor, dor, cor, nada mais interessa naquela fracção de tempo. quando gemes e me chamas com a crueza dos néscios, sigo na vontade de te fazer vir. percepciono o meu exterior concentrada em ti, como se esse fosse um momento único e superior.



coitados d@s amantes que se enganam com a realidade. e acordam com o desconforto dos equívocos.





[nada é mais frágil que a franqueza com que comungamos os prazeres, pensando que ninguém faz deles a sua própria contabilidade criativa. e não há agências de rating para os afectos. lixo mais que perfeito, diriam elas.]

terça-feira

a esteta

a tótó reclama direitos herdados de um desgoverno prazeiroso, ao mesmo tempo que o governo absolutamente maioritário do país dos chico-espertos VS otários aumenta os passes dos transportes em 25 por cento.
no mesmo cenário cosmopolita, uma bela esteticista, não tão jovem assim, mas artista até ao miolo, contava-me a história que me deixou sem fõlego:
nascida onde a europa e a ásia se juntam-ou-separam, foi primeiro vendida algures no tempo e no espaço e depois massacrada pelo marido luso. desejou ter filhos varões, e alá fez-lhe a vontade. antes assim, senhora, que as mulheres sofrem muito. pedi muito e alá concedeu-me, dois filhos homens queridos, que eduquei e me acarinham. orgulhosa da prole sem vícios, só tem um desejo: conhecer o dubai. de resto nem os filhos querem regressar ao irão natal, nem ela concebe outro país para viver que este nosso. a mulher com nome de ópera fala línguas estranhas: russo, árabe, turco, azeri, casaque, e português homologado pelo exame que fez. todo o seu dia começa sem uma hora de acabar, e quando regressa a casa só tem uma meta: recuperar forças para o dia seguinte. eu gosto de fazer bem o meu trabalho para a senhora sair daqui mais bonita,... ainda mais bonita. ....sim, a língua de camões é muito ardilosa. e ali mesmo no largo do dito, há quem fantasie e quem realize. a escolha afinal é sempre de cada um.

domingo

a dor e os amigos

num dia, há 40 graus para derreter em qualquer lugar. uma marcha de galdérias, um desfile de ciclistas nus, uma festa de gays e lésbicas. milhões de pessoas nas praias ao sol tórrido, transportes colectivos apinhados, carros de família em pára-arranca doloroso. num dia, há notícias que não vemos, nem lemos, nem queremos saber. a noite é do demo, na alegria e na bebedeira, no deve e haver de amor-sei-lá-se-é. num dia, somos felizes. no outro acordamos tristes de um sono leve e agitado, e nada do que possámos pensar nos alívia a dor. e como não há dores perfeitas, há alguém que nos liga 'do outro lado', e alguém que nos liga deste a falar do lado de lá da dor mais profunda. há um sms sem valor, meramente simbólico, a imperfeição dos pêsames, tão humana, descascada de pudor.
é nesse exacto momento que balançamos entre o que temos de menos e o que não teremos nunca mais, um dia. temos sempre de menos o transitório sem perceber o valor do que é incondicional. inventar problemas? eles mesmos entram na nossa vida com a armadura dos sérios e a censura devida aos levianos.
os amigos, dois amigos, tão diferentes e tão iguais, tão desprotegidos e tão fraternos. como compensar as dádivas e o amor incondicional que me dão?
como suspender-lhes a dor e resgatá-los do lugar onde manda o sofrimento?

sábado

(fora) do armário

O armário é um sítio amplo e devidamente naftalizado para que não entrem bichos. Todas as peças se arrumam devidamente num armário confortável. O grande inconveniente dos armários são as portas. De vez em quando, abrem-se! Entra uma brisa de ar fresco, sente-se um fôlego de liberdade. Cá fora, o oxigénio é mais respirável embora propício a focos de infecção. O habitante do armário, experimentando o ar público, teme represálias bacterianas. Mune-se de coragem para se fazer ao mundo; ou volta para dentro enquanto a porta está entreaberta.
Lá dentro, mais cedo do que tarde, sucumbe à assepsia dos armários, quando não à tristeza do isolamento.
Dentro dos armários, fica-se tendencialmente quadrado, como os paralelipípedos que se pisam na rua, o espaço público de todas as identidades. Fora do armário, há correntes de ar, chuvas e coriscos, poeiras e malvadezas várias. Mas também há sol, mar e boa gente. Não é o lusco-fusco dos armários bafientos, mas a vida a cores em todas as dimensões.

Moral da história:
Ninguém é inteiro, enquanto esconde ou contradiz uma parte de si mesm@.
Ninguém consegue iludir-se o tempo todo.
Ninguém é feliz escondendo-se.
Ninguém é feliz sozinho.
Ninguém pode fazer por outrem, aquilo que esse outro recusa.
E se, quem pode, não quer mudar, nada adianta escudar-se em terceiros.

sexta-feira

lua nova

gostar é simples, descomprometido, gostoso, malvado. havia umas escadas que trepamos de mão dada. fomos dar a um sítio escuro e vazio que enchemos com pressa. exteriorizamos a pele, com os trapos para o chão. não estava frio, nem dia, ainda não era verão. não foi brusco, nem suave aquele abraço em que nos mergulhámos. um beijo longo espalhou-se com sofreguidão. humedecemos para lá dos lábios juntos e logo ali me tomaste inteira. tentei não machucar a frágil textura do teu corpo. em cada milímetro da tua pele deslizava o meu desejo. eu não sabia como te tomar. nunca sei. nesse preciso instante, desliguei o complexómetro e entrei em comando remoto. algures afrodite havia de me guiar. tudo o que se passou depois surtiu efeito. suor, músculos, insónia e aconchego. um disparate de fluidos e gestos sem plafond. e cada vez que me lembro de ti, oscilo. entre a ternura da delicada figura e a dimensão do rombo no meu coração.

quinta-feira

saravá

a gente passa a vida a repetir-se
os meus amores-perfeitos são de uma inusitada ética
murcham, arrebitam, sorriem e nunca mais acabam

do amor desastrado, e dos golpes de sorte, aporto num cais
ela entra de mansinho, quero até nunca mais
tenho o escrúpulo do ralenti, jeito de amadora, toque de veludo

sou absolutamente exclusivista, introspectiva, devotada
ninguém mais entende este gostar de alguém
há uma estética parva a atirar para o arco-íris
festejo um dia de chuva e todo o sol escaldante
queimo o cérebro em conjecturas, risco lembranças a traço de lápis

a estética das amantes é antagónica ao que supõem delas
e toda a pressa resulta em precipício
um princípio apenas, para um voo divino
peço proteção aos planetas e aos mares
tudo me revolve as entranhas
mas a alegria é mesmo um destino

sexta-feira

dois anos, cinco meses, uns dias e algumas horas depois.


tudo mudou de forma muda, mais perto do antes, mais perto do que sou.
decisões que custam horrores. horrores decididos sem custo.
a vida dá voltas e encaixa, dois passos adiante, mais perto do mar -
falta tempo para o contemplar.


de resto, se arrependimento matasse a vida era eterna.

domingo

imenso rima com feliz?

as palavras desejadas,
o beijo mais que perfeito,
a multa mais pesada
e um passado imperfeito

na nuca o peso de soco suave,
neurónios em modo hibernado,
preguiça que é entrave,
no dia mais perdulário


há ontens que pesam, e alegram,... e amanhã redentores.

segunda-feira



te valorizo [tiê]

lonely can be sweet [ursula rucker]

domingo



comme un boomerang [serge gainsbourg]
uma semana em que a vida leva uma volta.
nada visível, nada exterior, tanto melhor.

segunda-feira

raispartaisto

há dias em que acordo quase extraordinariamente bem disposta e depois alguém - sempre quis escrever isto... - fode tudo! e por essas e por outras que começo a ficar farta de gente, não só de gentinha, mas de pessoas no geral e de sonsos em particular. sonsos e sonsas, que nisso não há diferenças entre os géneros. parece que tiraram o dia para treinar tiro ao alvo com arco e flecha, na maçã que está em cima da minha cabeça. eu sei que não está lá nenhuma maçã, nem uma auréola santa, apenas algum cabelo. só cá por coisas, se pudesse, cortava a cabeça e lá se iam os tiros. assim, aguenta-se e 'prá frente'... que atrás vem gente. logo, quando esta tortura de sonsice tiver um intervalo, vou tentar adormecer como se mergulhasse no oceano profundo, negro, frio, salgado, ameaçador. sem medos.

clube Safo_uma 2.ª oportunidade

morte anunciada da associação clube safo pode não acontecer, se as mulheres que não desejam esse fim se mobilizarem. há já um grupo animado com esse propósito que tentará, na assembleia-geral marcada para sábado, 26 de março, 14h30, em lisboa, iniciar o relançamento da actividade. há uma declaração de intenções e, para já, basta que sócias e não sócias se expressem.
a mensagem é simples:

Se estiveres disponível contacta-nos no grupo do facebook
“Pessoas que não querem deixar morrer o Clube Safo” https://www.facebook.com/group.php?gid=327740996119&ref=ts ou 965449148 ou para o endereço de e-mail amigascsafo@gmail.com

domingo

visita @ amigas

a riqueza da vida também passa pelos amigos.
há coisas que não se pedem. ou se oferecem ou não.
por exemplo, a amizade, numa forma ou noutra, constante ou singular, longa ou efémera.
há pessoas que não conhecemos, mas que visitamos, e é bom na mesma.
há tempo que isso acontece com o blog alma gémea, que um dia destes escreveu uma coisa provavelmente 'vulgar', simples mas muito bonita:

Um passo de cada vez,
Um alento de cada vez,
Um degrau de cada vez,
Uma palavra de cada vez,
Um dia de cada vez.

quarta-feira

uma das mais belas canções



fade into you [mazzy star]
...dedicatória COMSENTIDO

sexta-feira



assim, como quem vai ali e volta de alma cheia,... a partir de 19 de março, vive la france!


I don't love anyone [belle & sebastian]

quinta-feira



working class hero [john lennon]

quarta-feira

(penso que) os seres humanos têm de crescer. a violência é um estado primitivo. A discussão permite-nos crescer.” [entrevista ao d.n. - ingrid betancourt, franco-colombiana que passou 2321 sequestrada na selva pelas farc]

terça-feira

a leveza da vida quotidiana não sabe nada do soco que levamos na despedida... [série aforismos caseiros]

domingo



And I Love Her [the beatles]

sexta-feira



ignore-moi (acoustique) [mélanie pain]


travessia [milton nascimento]

quinta-feira

cool



loving strangers [russian red]

terça-feira

hot



te amo [rihanna] ...concerto, em lisboa, em dezembro de 2011

segunda-feira



a culpa [maria gadú e varandistas]

sexta-feira

era o 'segredo' da cultura pop mais bem guardado, até há pouco.
sir elton john disse que vai ser o novo hino lgbt.
senhoras e senhores, eis BORN THIS WAY de lady gaga:


Lady Gaga - Born This Way (Radio Version) by AnimalMon

quinta-feira


altar particular [maria gadú]

quarta-feira

terça-feira


tudo diferente [maria gadú]

... melodia quase perfeita

segunda-feira


always the sun [the stranglers]
22.2.2.2011
um bloco de trauma

sexta-feira


love or leave me (nina simone)... ama-me ou deixa-me

p.s. - maravilhoso este texto do m.v.a. sobre os relacionamentos. indispensável ler.

quinta-feira



todo cambia (mercedes sosa)

domingo


no me importa nada (luz casal)

sábado



...'tô aprendendo a viver sem você. (detonautas)

sexta-feira



fine (clara luzia)


quem sabe isso quer dizer amor (milton nascimento)

quinta-feira

e ao sétimo dia depois do ano velho, declaro-me exausta!
esmagada pelo sono, derrotada pela tristeza, arrasada pelo cansaço geral, submersa pelo mau tempo, porém, infinitamente livre!


entre o sim e o não (simone)

quarta-feira



onde estará o meu amor (chico césar + maria bethânia)

...pode haver beleza na tristeza?

terça-feira


vambora (adriana calcanhoto)

segunda-feira



meu coração ateu (maria bethânia)

domingo


fácil de entender...(the gift)