terça-feira

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compromisso promessa
conversa mutismo
abertura preconceito
aprende cliché
sentimento discurso
avidez naúsea
ação conformismo
modéstia presunção
mimo frieza
carinho carrinho
ar livre fechado
espiritualidade religião
natureza deus
compaixão egotismo
mistério escandalo
alquimia farmácia
ritmo marasmo
presença ostracismo
emoção indiferença
revolução mudança
humano desumano
sensivel arrogância
princípios inconsequência
fraternidade hierarquia
diversidade monolitismo
crítica destruição
coerência camaleão
generosidade avareza
mundo pátria
coragem medo

domingo

... vou ali e já volto

que os meus amigos e amores sejam felizes, que não lhes falte a saúde e as condições de subsistência; que os cidadãos ganhem consciência universal e humanismo; que cada umX beba mais autocrítica e solidariedade; que contemos muitos instantes de bem-estar e desvalorizemos o que corre mal, e ainda assim o contrariemos com coragem e ação; que as boas pessoas cooperem; e se a luz se apagar, fiquem apenas memórias boas - e quem ficar siga na procura de um quotidiano melhor.

segunda-feira

anti-status-quo-vadis

e então, pensar maduramente que há coisas a decidir de uma vez por todas:
não esperes de outros o reverso do que fazes; não declares o profundo sentir, nem expresses as emoções em roda-livre; não descures o teu eu, e só o teu, eu, só; não antecipes as certezas amargas, mas não faças concessões para que tas oferendem; não fales, não fales, não fales; não opines, não azucrines, não respondas; não há ninguém ao teu lado, só (no) passado; o futuro é um caldinho de expetativas, não esperes, não conjetures, não desejes; não há presente mais que perfeito, nem imperfeito, nem composto; os tempos verbais não mudam na língua portuguesa; podes comprar um dicionário de verbos, e folhea-lo todo, mas não te percas com os reflexos...concentra-te no presente indicativo e descansa por vezes com o gerúndio, ...gozando.


determina as tuas regras, para ti e para o teu viver social; nada vive - parece - sem contrapartidas, nem a amizade, porventura nem o amor, e já nem tens idade para te apaixonares. se um dia te ocorre que no dolce fare niente e no calor do afago encontraste a tranquilidade destes tempos, desengana-te: tens aí um problema, porque sem controvérsia não há - parece - enamoramento, afeição, o que for.


termina ainda o que não consegues concluir, suportar, gerir, e isola-te com os seres que não te interpelam senão para uma lambidela. destila a dor e o desgosto em água quase tudo e cloreto de sódio, mas fá-lo a solo, não vás criar uma poça onde te afundes.


a uma dor que sintas na mão, no braço, no peito, na cabeça, lembra-te que há dores maiores que não doem em lugar nenhum e estão sempre presentes: aquela que vem da ausência permanente  e definitiva de alguém que amas, ou aquela outra que advém da doença matreira e persistente que te corroi sem perdão; e há as dores da desatenção, da falta de trabalho, do desencontro constante, da desorientação pessoal, da rotina. mas muitos sobrevivem com estas e uns poucos traçam-lhe um  fim 'egoista'. ora a escolha, em última análise, será tua.
por fim, cuida-te, cuida-te de fora, cuida-te para dentro, cuida-te na bolha de segurança com outros seres, cuida-te contendo a franqueza, segurando a vertigem, respirando fundo: bebe o sol quando ele aparecer, e controi reservas de sorrisos malandros, para ti, sozinha.

quinta-feira

amar alguém só pode fazer bem



o mais recente cd de marisa monte... é uma delícia!

terça-feira

sábado

não há mundo para estas palavras

um dia, se lhe dissessem com os olhos e com os lábios amo-te, um dia apenas que fosse, ela sentiria redimir-se dos golpes de azar, das vezes que errara, do muito que deixara por fazer, e das declarações silenciosas dela própria quando diz amo-te, pronunciado apenas uma vez sem bom senso.
há palavras que golpeiam e outras que curam, ou serão as mesmas, conforme se dizem ou se omitem?
há palavras que são pura expressão do sentir, percepção, corrente de ar, tropeção, refúgio, nudez.
certas palavras perdem o tempo, como nos perdemos no tempo de minudências infelizes.
um dia pode valer por mil dias, e um segundo trazer-nos de volta à superfície.


ps - dia internacional contra a violência doméstica. não há palavras que possam resumir o que penso do assunto. só repugnância e vergonha.

domingo

coisas da idade

menos tempo, mais rugas, menor visão, maior acuidade, felicidade simples, doenças graves, precariedade, isolamento, dores avulsas, alegrias efémeras, doses de paciencia, impertinencia casuística, revolta racional, afectos controlados, instantes de insensatez, procrastinação, desvalorização de tudo em medidas assimetricas para cada assunto.

quarta-feira

declaração de amor

"posso ir dormir hoje no quentinho do teu quentinho?"

sexta-feira

a preguiça é descomunal

agora, finalmente, a expressão "vemo-nos gregos" faz sentido.
a lua é negra e carente.
o inverno verdadeiramente molhado, chega mais cedo.
o outono é quente.
a cabeça não tem ideias claras, aliás não tem ideias.
há demasiada gente ocupada em degladiar um poder que não existe.

o mundo parece um lugar sombrio sem fim.
não há luz ao fundo do túnel, que ninguém penetrou.
todos os apetites vão para coisas futéis: sexo, silêncio, solidão, séries.

segunda-feira

vagueai inconsoláveis

ela nem tinha reparado nisso, mas metade da sua vida activa estava cumprida. o resto seria um extra esforçado e esticado prolongamento de sobrevivência, se não morresse cedo. quando encontrou esse caso, fazia mais um teste ao seu poder de sedução, um desmame do jejum sexual. havia uma incógnita, sim, mas feita de curiosidade, desejo e um pequeno fascínio intelectual. a prova do gosto surpreendeu e começava a prende-la. as pessoas podiam entender-se e respeitar-se e terem a sua vida calma e aprazível. podiam flirtar, e deliciar-se com coisas gostosas, e ter tempo para ter tempo partilhado. e podiam entender-se no intelecto e no leito. e podiam apreciar-se mesmo se a economia do país se deprecia. e nada parecia rimar com acidez ou segredo. que coisa mais estranha!
senhora de si, achou irreal essa compostura de amante amada. quanto mais me prendes, sem que me prendas, mais te mostro que não estou captiva. e foi então que soltou o gnomo feito da matéria comum dos seres que negam o bem do bom da vida. não há doenças, nem acidentes, nem pontos fracos, só uma inaudita busca pela frustração.
porque se é bom, tem de acabar, não é?

domingo

o truque

se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí.
tenho a madrugada como companheira.
eu estou por aí...
fernanda takai canta isso. encanto-me com ela.

venezia


tem a fama de cidade para amantes ou apaixonados. mas a fama é sempre um rótulo sem substência. transpira história e turismo, tem água por todos os lados, italianos irritados com tantos turistas, gondoleiros mafiosos, concertos diários em igrejas em que tropeçamos a cada esquina. pontes e canais, praças e ruas sem nome, apenas enigmáticas designações: ponte do diabo, calle da senhora, rio terá del biri, pequena rota dos assassinos. um vago cheiro a mofo e um outro a esgoto quando anoitece. não há carros, muitos barcos. há alpendres pendurados sobre telhados de cinco pisos, roupa estendida, pequenos jardins, escassos metros quadrados pendurados numa felicidade de céu. vias estreitas que não deixam ver o sol, e uma luz superiormente incandescente que adormece saudades que não sentem lisboa, a cidade branca. peças de arte onde menos se espera, mercados de frutas em canoas grandes, nenhum sem abrigo, nenhum pedinte, óperas todas e obras em edifícos seiscentistas, onde vivem familias e cães e escritórios de advogados e ateliers de arquitetos. não há muitos empregados veramente venezianos, só os donos das cantinas e tratorias. uma subtil invasão da indochina abastece os locais de repasto com empregados pequenos, morenos, vagamente asiático, num italiano perfeito e uma displicência de serviço prestável e perfeitamente standard. paga-se 50 centimos para atravessar o grande canal em gondola, não se paga nada para andar nele, para trás e para a frente, num vaporeto que pára em todos os apeadeiros. tudo é perto de tudo e simultanemante vasto e distante, porque nenum mapa é explícito na localização da rua... contem 5394 em Canaregio, um dos vários bairros afreguesados, e estamos na casa de corto maltese...mas para lá chegar há que dar uma volta ao mundo. e na praça de roma, sempre dela, é o centro das partidas e chegadas para esse imenso puzle. veneza.

não se vêem amantíssimos namorados, nem casais celebrando bodas, só gente que deambula, ou espera nos clássicos locais do hall da cidade: o passo ducal, a basílica e a torre de são marcos. há demasiados americanos, e os asiáticos ricos em grupos disciplinados. há lojas com astesões dentro, a fazer peças únicas de couro, ou papiros quase fora de validade. uma italiana é mesmo curta, a melhor custou 90 centimos mas a regra é andar pelos dois euros, há gelados em cada esquina, baratos e bons; o esparguete é sempre al dente, o chianti é ácido, e o melhor tiramisu está lá. as máscaras carnavalescas são infinitas em variedade de materiais e rostos, há contrafação por subsaahrianos que fogem lá como cá ao vislumbre de policia e há venda ambulante de roupa made in italia. do aeroporto toma-se o autocarro cinco para a praça que é o interface de transportes. meia hora depois, lá mesmo, apanha-se o vaporeto com mais cento e tal pessoas para a ribeirinha san marco, não há muito para escolher, só duas linhas: 1 e 2, ou N se for entre a meia noite e as três ou mais da manhã. e o silêncio negro esconde todos os fantasmas do passado nos becos de uma cidade arrancada à idade média, ao renascimento, ao futuro, quem sabe...

segunda-feira

vai e vem


aprende-se que não se modifica ninguém.
ensina-se que aprender é uma constante.
a curiosidade alimenta, o trabalho dá solidez.
aprende-se que viajar dá vida. parar mata sempre.
que morremos desde que nascemos. que só paramos, quando morremos.
que ter paciência é sinal de sapiência. que a impaciência é espuma de contrariedades.
que há passos à frente e para os lados, mas ensaiar marcha-atrés só consome tempo.
aprende-se que nada é garantido, nada definitivo.
mas se não há bem que sempre dure, também não há mal que nunca acabe.
que nem tudo depende de nós, que se não depende não o mudamos, mas mudamos o destino conforme nos comprometemos. que ouvir e calar é oportuno, mas calar e nem ouvir é incauto. aprendemos de forma terrível e sem entender, e esquecemos para aprender outra vez e esquecer de seguida. e nada muda, tudo muda, e permanecemos ingénuos e espertos, consoante o adn emocional do nosso mapa pessoal.

sábado

goodbye rem


loosing my religion - REM

...pode perder-se o que nunca se teve?
as músicas deles, por exemplo, permanecem - embora eles se separem.

quarta-feira

levante



Hindi Zahra - Stand Up

conheçam-na e apaixonem-se


Hindi Zahra* - beautiful tango

* 09.11.2011, @ lisboa

sábado

espelho meu

de vez em quando ocorre que a transitoriedade dos dias pode ser mesmo infinita. o que hoje é prazer, logo mais pode descer aos infernos e até aquele ser que nos acompanha sempre pode desgostar de nós. nesse instante, que vale ir ao espelho e perguntar a mim que ando a fazer ao eu? nada. nada de resposta, nada de nada.
cada caminho faz-se de escolhas e consentimentos, que é outra maneira de não escolher escolhendo. e pelos meandros do transitório, procuram-se certezas, pequenas certezas, irrelevantes, irresponsáveis e irregulares. irritantes certezas que consomem e nada somam ao nada que há. de todas as incertezas, a menos falível é o falhar ao tentar e a mais segura de todas o não falhar se não tentar.
tenho horror ao vazio, e ele acolhe-me e consola-me porque é seguro, previsível e constante.
somos nós próprios e as circunstâncias, já dizia Unamuno.
tentar atravessar entre dois arranha-céus no equilíbrio dos inconscientes, faz de nós menos loucos? ou somos mais sãos porque apesar da tentativa conhecemos o risco da queda, mas não a gravidade da fratura, nem a dor que se sente?
tentar sim, até quando? enquanto o medo não for mais forte que o provável degredo.

terça-feira

o farol

uma pedra, depois outra, uma pedra maior, uma outra oval, uma pequenina pedra, e muitas diferentes. com elas fez uma pirâmide irregular. acendeu uma vela, para ter a luz que faltava naquele monte de pedras desordenadas. juntou um pouco de areia em busca da coerência. acendeu uma pequena fogueira com gravetos sem consistência de lareira. por vezes, pensava que tinha um farol, tantos eram os naufragos que procuravam a pálida luz.
e de repente, na incoerência da construção que era a sua vida, sentia o vazio da empreitada. e acendia outra vela, procurando um aroma conveniente, indolente. os novos naufragos chegavam sem-licença de marear, em busca de enormes orelhas e boca pequena, esquecida de fala própria. e neste faz e desfaz espaçado, o tempo não contava para nada, senão fugir-lhe debaixo dos pés.