um dia, se lhe dissessem com os olhos e com os lábios amo-te, um dia apenas que fosse, ela sentiria redimir-se dos golpes de azar, das vezes que errara, do muito que deixara por fazer, e das declarações silenciosas dela própria quando diz amo-te, pronunciado apenas uma vez sem bom senso.
há palavras que golpeiam e outras que curam, ou serão as mesmas, conforme se dizem ou se omitem?
há palavras que são pura expressão do sentir, percepção, corrente de ar, tropeção, refúgio, nudez.
certas palavras perdem o tempo, como nos perdemos no tempo de minudências infelizes.
um dia pode valer por mil dias, e um segundo trazer-nos de volta à superfície.
ps - dia internacional contra a violência doméstica. não há palavras que possam resumir o que penso do assunto. só repugnância e vergonha.
AS MULHERES TÊM TODAS UM PONTO DO CORPO, UM RECANTO DA CIDADE, UMA HORA DO DIA, QUE SÃO NELAS COMO QUE UMA PORTA SECRETA, PELA QUAL PODEM SAIR DE SI PRÓPRIAS, DA SUA TIMIDEZ, E PENETRAR EM TODA A ESPÉCIE DE LOUCURAS, GRAVES OU VENIAIS.[Erik Orsenna]
sábado
domingo
coisas da idade
menos tempo, mais rugas, menor visão, maior acuidade, felicidade simples, doenças graves, precariedade, isolamento, dores avulsas, alegrias efémeras, doses de paciencia, impertinencia casuística, revolta racional, afectos controlados, instantes de insensatez, procrastinação, desvalorização de tudo em medidas assimetricas para cada assunto.
quarta-feira
sexta-feira
a preguiça é descomunal
agora, finalmente, a expressão "vemo-nos gregos" faz sentido.
a lua é negra e carente.
o inverno verdadeiramente molhado, chega mais cedo.
o outono é quente.
a cabeça não tem ideias claras, aliás não tem ideias.
há demasiada gente ocupada em degladiar um poder que não existe.
o mundo parece um lugar sombrio sem fim.
não há luz ao fundo do túnel, que ninguém penetrou.
todos os apetites vão para coisas futéis: sexo, silêncio, solidão, séries.
a lua é negra e carente.
o inverno verdadeiramente molhado, chega mais cedo.
o outono é quente.
a cabeça não tem ideias claras, aliás não tem ideias.
há demasiada gente ocupada em degladiar um poder que não existe.
o mundo parece um lugar sombrio sem fim.
não há luz ao fundo do túnel, que ninguém penetrou.
todos os apetites vão para coisas futéis: sexo, silêncio, solidão, séries.
quinta-feira
segunda-feira
vagueai inconsoláveis
ela nem tinha reparado nisso, mas metade da sua vida activa estava cumprida. o resto seria um extra esforçado e esticado prolongamento de sobrevivência, se não morresse cedo. quando encontrou esse caso, fazia mais um teste ao seu poder de sedução, um desmame do jejum sexual. havia uma incógnita, sim, mas feita de curiosidade, desejo e um pequeno fascínio intelectual. a prova do gosto surpreendeu e começava a prende-la. as pessoas podiam entender-se e respeitar-se e terem a sua vida calma e aprazível. podiam flirtar, e deliciar-se com coisas gostosas, e ter tempo para ter tempo partilhado. e podiam entender-se no intelecto e no leito. e podiam apreciar-se mesmo se a economia do país se deprecia. e nada parecia rimar com acidez ou segredo. que coisa mais estranha!
senhora de si, achou irreal essa compostura de amante amada. quanto mais me prendes, sem que me prendas, mais te mostro que não estou captiva. e foi então que soltou o gnomo feito da matéria comum dos seres que negam o bem do bom da vida. não há doenças, nem acidentes, nem pontos fracos, só uma inaudita busca pela frustração.
porque se é bom, tem de acabar, não é?
senhora de si, achou irreal essa compostura de amante amada. quanto mais me prendes, sem que me prendas, mais te mostro que não estou captiva. e foi então que soltou o gnomo feito da matéria comum dos seres que negam o bem do bom da vida. não há doenças, nem acidentes, nem pontos fracos, só uma inaudita busca pela frustração.
porque se é bom, tem de acabar, não é?
domingo
o truque
se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí.
tenho a madrugada como companheira.
eu estou por aí...
fernanda takai canta isso. encanto-me com ela.
tenho a madrugada como companheira.
eu estou por aí...
fernanda takai canta isso. encanto-me com ela.
venezia
tem a fama de cidade para amantes ou apaixonados. mas a fama é sempre um rótulo sem substência. transpira história e turismo, tem água por todos os lados, italianos irritados com tantos turistas, gondoleiros mafiosos, concertos diários em igrejas em que tropeçamos a cada esquina. pontes e canais, praças e ruas sem nome, apenas enigmáticas designações: ponte do diabo, calle da senhora, rio terá del biri, pequena rota dos assassinos. um vago cheiro a mofo e um outro a esgoto quando anoitece. não há carros, muitos barcos. há alpendres pendurados sobre telhados de cinco pisos, roupa estendida, pequenos jardins, escassos metros quadrados pendurados numa felicidade de céu. vias estreitas que não deixam ver o sol, e uma luz superiormente incandescente que adormece saudades que não sentem lisboa, a cidade branca. peças de arte onde menos se espera, mercados de frutas em canoas grandes, nenhum sem abrigo, nenhum pedinte, óperas todas e obras em edifícos seiscentistas, onde vivem familias e cães e escritórios de advogados e ateliers de arquitetos. não há muitos empregados veramente venezianos, só os donos das cantinas e tratorias. uma subtil invasão da indochina abastece os locais de repasto com empregados pequenos, morenos, vagamente asiático, num italiano perfeito e uma displicência de serviço prestável e perfeitamente standard. paga-se 50 centimos para atravessar o grande canal em gondola, não se paga nada para andar nele, para trás e para a frente, num vaporeto que pára em todos os apeadeiros. tudo é perto de tudo e simultanemante vasto e distante, porque nenum mapa é explícito na localização da rua... contem 5394 em Canaregio, um dos vários bairros afreguesados, e estamos na casa de corto maltese...mas para lá chegar há que dar uma volta ao mundo. e na praça de roma, sempre dela, é o centro das partidas e chegadas para esse imenso puzle. veneza.
não se vêem amantíssimos namorados, nem casais celebrando bodas, só gente que deambula, ou espera nos clássicos locais do hall da cidade: o passo ducal, a basílica e a torre de são marcos. há demasiados americanos, e os asiáticos ricos em grupos disciplinados. há lojas com astesões dentro, a fazer peças únicas de couro, ou papiros quase fora de validade. uma italiana é mesmo curta, a melhor custou 90 centimos mas a regra é andar pelos dois euros, há gelados em cada esquina, baratos e bons; o esparguete é sempre al dente, o chianti é ácido, e o melhor tiramisu está lá. as máscaras carnavalescas são infinitas em variedade de materiais e rostos, há contrafação por subsaahrianos que fogem lá como cá ao vislumbre de policia e há venda ambulante de roupa made in italia. do aeroporto toma-se o autocarro cinco para a praça que é o interface de transportes. meia hora depois, lá mesmo, apanha-se o vaporeto com mais cento e tal pessoas para a ribeirinha san marco, não há muito para escolher, só duas linhas: 1 e 2, ou N se for entre a meia noite e as três ou mais da manhã. e o silêncio negro esconde todos os fantasmas do passado nos becos de uma cidade arrancada à idade média, ao renascimento, ao futuro, quem sabe...
não se vêem amantíssimos namorados, nem casais celebrando bodas, só gente que deambula, ou espera nos clássicos locais do hall da cidade: o passo ducal, a basílica e a torre de são marcos. há demasiados americanos, e os asiáticos ricos em grupos disciplinados. há lojas com astesões dentro, a fazer peças únicas de couro, ou papiros quase fora de validade. uma italiana é mesmo curta, a melhor custou 90 centimos mas a regra é andar pelos dois euros, há gelados em cada esquina, baratos e bons; o esparguete é sempre al dente, o chianti é ácido, e o melhor tiramisu está lá. as máscaras carnavalescas são infinitas em variedade de materiais e rostos, há contrafação por subsaahrianos que fogem lá como cá ao vislumbre de policia e há venda ambulante de roupa made in italia. do aeroporto toma-se o autocarro cinco para a praça que é o interface de transportes. meia hora depois, lá mesmo, apanha-se o vaporeto com mais cento e tal pessoas para a ribeirinha san marco, não há muito para escolher, só duas linhas: 1 e 2, ou N se for entre a meia noite e as três ou mais da manhã. e o silêncio negro esconde todos os fantasmas do passado nos becos de uma cidade arrancada à idade média, ao renascimento, ao futuro, quem sabe...
segunda-feira
vai e vem
aprende-se que não se modifica ninguém.
ensina-se que aprender é uma constante.
a curiosidade alimenta, o trabalho dá solidez.
aprende-se que viajar dá vida. parar mata sempre.
que morremos desde que nascemos. que só paramos, quando morremos.
que ter paciência é sinal de sapiência. que a impaciência é espuma de contrariedades.
que há passos à frente e para os lados, mas ensaiar marcha-atrés só consome tempo.
aprende-se que nada é garantido, nada definitivo.
mas se não há bem que sempre dure, também não há mal que nunca acabe.
que nem tudo depende de nós, que se não depende não o mudamos, mas mudamos o destino conforme nos comprometemos. que ouvir e calar é oportuno, mas calar e nem ouvir é incauto. aprendemos de forma terrível e sem entender, e esquecemos para aprender outra vez e esquecer de seguida. e nada muda, tudo muda, e permanecemos ingénuos e espertos, consoante o adn emocional do nosso mapa pessoal.
sábado
goodbye rem
loosing my religion - REM
...pode perder-se o que nunca se teve?
as músicas deles, por exemplo, permanecem - embora eles se separem.
quarta-feira
segunda-feira
sábado
espelho meu
de vez em quando ocorre que a transitoriedade dos dias pode ser mesmo infinita. o que hoje é prazer, logo mais pode descer aos infernos e até aquele ser que nos acompanha sempre pode desgostar de nós. nesse instante, que vale ir ao espelho e perguntar a mim que ando a fazer ao eu? nada. nada de resposta, nada de nada.
cada caminho faz-se de escolhas e consentimentos, que é outra maneira de não escolher escolhendo. e pelos meandros do transitório, procuram-se certezas, pequenas certezas, irrelevantes, irresponsáveis e irregulares. irritantes certezas que consomem e nada somam ao nada que há. de todas as incertezas, a menos falível é o falhar ao tentar e a mais segura de todas o não falhar se não tentar.
tenho horror ao vazio, e ele acolhe-me e consola-me porque é seguro, previsível e constante.
somos nós próprios e as circunstâncias, já dizia Unamuno.
tentar atravessar entre dois arranha-céus no equilíbrio dos inconscientes, faz de nós menos loucos? ou somos mais sãos porque apesar da tentativa conhecemos o risco da queda, mas não a gravidade da fratura, nem a dor que se sente?
tentar sim, até quando? enquanto o medo não for mais forte que o provável degredo.
cada caminho faz-se de escolhas e consentimentos, que é outra maneira de não escolher escolhendo. e pelos meandros do transitório, procuram-se certezas, pequenas certezas, irrelevantes, irresponsáveis e irregulares. irritantes certezas que consomem e nada somam ao nada que há. de todas as incertezas, a menos falível é o falhar ao tentar e a mais segura de todas o não falhar se não tentar.
tenho horror ao vazio, e ele acolhe-me e consola-me porque é seguro, previsível e constante.
somos nós próprios e as circunstâncias, já dizia Unamuno.
tentar atravessar entre dois arranha-céus no equilíbrio dos inconscientes, faz de nós menos loucos? ou somos mais sãos porque apesar da tentativa conhecemos o risco da queda, mas não a gravidade da fratura, nem a dor que se sente?
tentar sim, até quando? enquanto o medo não for mais forte que o provável degredo.
terça-feira
o farol
uma pedra, depois outra, uma pedra maior, uma outra oval, uma pequenina pedra, e muitas diferentes. com elas fez uma pirâmide irregular. acendeu uma vela, para ter a luz que faltava naquele monte de pedras desordenadas. juntou um pouco de areia em busca da coerência. acendeu uma pequena fogueira com gravetos sem consistência de lareira. por vezes, pensava que tinha um farol, tantos eram os naufragos que procuravam a pálida luz.
e de repente, na incoerência da construção que era a sua vida, sentia o vazio da empreitada. e acendia outra vela, procurando um aroma conveniente, indolente. os novos naufragos chegavam sem-licença de marear, em busca de enormes orelhas e boca pequena, esquecida de fala própria. e neste faz e desfaz espaçado, o tempo não contava para nada, senão fugir-lhe debaixo dos pés.
e de repente, na incoerência da construção que era a sua vida, sentia o vazio da empreitada. e acendia outra vela, procurando um aroma conveniente, indolente. os novos naufragos chegavam sem-licença de marear, em busca de enormes orelhas e boca pequena, esquecida de fala própria. e neste faz e desfaz espaçado, o tempo não contava para nada, senão fugir-lhe debaixo dos pés.
segunda-feira
somos sempre principiantes...
um filme que -dizem alguns - pode ser um dos premiados nos próximos óscares.
chama-se 'beginners' e em português é exibido nos cinemas como "assim é o amor". para mim é um grande filme - não pelo tamanho, nem pela carga dramática, não por estar especialmente bem filmado ou montado, não porque vive de uma espectacular história. é cinema terno, triste, optimista, cosmopolita. o cinema é um bocado da vida, que não é nem apoteótica nem suicidária. 'beginners', de mike mills, está classificado como drama-comédia. por aqui já se vê a indefinição. o que realmente interessa em "beginners" não é a moral da história, mas justamente a falta de moral na vida - nas grandes surpresas ou no início de qualquer coisa.
"when it comes to relationships, we’re all beginners."
chama-se 'beginners' e em português é exibido nos cinemas como "assim é o amor". para mim é um grande filme - não pelo tamanho, nem pela carga dramática, não por estar especialmente bem filmado ou montado, não porque vive de uma espectacular história. é cinema terno, triste, optimista, cosmopolita. o cinema é um bocado da vida, que não é nem apoteótica nem suicidária. 'beginners', de mike mills, está classificado como drama-comédia. por aqui já se vê a indefinição. o que realmente interessa em "beginners" não é a moral da história, mas justamente a falta de moral na vida - nas grandes surpresas ou no início de qualquer coisa.
"when it comes to relationships, we’re all beginners."
sexta-feira
ponham o amor na constituição, gratuito e tendencialmente universal
é condiçao do amor ser
transitório
provisório
ilusório
peremptório
e, ao mesmo tempo, é tudo
fecha o mundo, dá-lhe um sentido que rima com sofrido
se não vivessemos a esperança do amor
definitivo, consumido, competitivo, restritivo
...não seríamos tão profetas de uma miraculosa miragem de felicidade
queria um amor para cada pessoa,
gratuito, talvez fortuito,
na crença de que os dias fossem mais toleráveis e aprazíveis
não sei se o amor é fodido, mas bem que podia ser!
transitório
provisório
ilusório
peremptório
e, ao mesmo tempo, é tudo
fecha o mundo, dá-lhe um sentido que rima com sofrido
se não vivessemos a esperança do amor
definitivo, consumido, competitivo, restritivo
...não seríamos tão profetas de uma miraculosa miragem de felicidade
queria um amor para cada pessoa,
gratuito, talvez fortuito,
na crença de que os dias fossem mais toleráveis e aprazíveis
não sei se o amor é fodido, mas bem que podia ser!
quarta-feira
osculando atitudes
coisas que desgosto... sempre, ás vezes, um poucoxinho grande!... dita-duras, do pensamento, do pré-conceito, estreito e nhurro. falácias ditas com convicção, convicções cruzadas com despautério. e declarações de princípio, como se a plateia estivesse à beira do precípicio, em risco fatal, numa queda certeira, salva apenas pelo amén. e as tristezas várias quando lhes morre a esperança, na fluidez da crença, uma tremura insana, o antes assim. o prejuizo da não-desculpa, o esquecimento d'obrigado, os seres alheios à delicadeza do trato. e os favores, favorzinhos, vá lá, dê um jeitinho. a falta de atenção na repartição, a impaciência militante, o fulgor da inabilidade, o arrojo imaturo, a flacidez das ideias, e aquele gesto tenebroso do assentir com a cabeça, qual inerte cachorro de porcelana. e os pressentimentos tão fortes que vão direitinhos ao que queremos ver acontecer, porque se a realidade não se muda, altera-se a percepção que dela temos e o mundo molda-se como adivinhamos. é tudo tão mais fácil assim! com ultimatos, berros escritos, sussurros cuscuvilheiros e armadilhas rasteiras. e com rezas, de igreja ou de partido, mudam-se os símbolos intocáveis e continuamos carneiros num rebanho. e depois, há ainda a força das matilhas, das manadas, das tribos, um disparate de declarações e confusões, bicos-de-pés e desnorte. chiça! há quem não se enxergue como a poeira num pedaço de areia, nano-nano-dimensional face ao mundo real.
osculando palavras
coisas que gosto de gostar... aquela persistência tonta de não desistir e concretizar, tecnologicamente falando! a mania de não dar valor ao valor que outros dão, porque nada do que é dado é valorizado! a coragem de não ter limites no acreditar que é possível, por mais vozes que se façam ouvir num coro grego trágico, que é cómico sem o saber! a futilidade de não ver o perigo, muito menos medi-lo, pesem as experiências e as hordas de tolos que se levam demasiado a sério, como se o mundo cuidasse de temer fátuos poderes! a vida que golpeia o destino, que sisudo vira alegria, e soma prazeres e deambulações descomprometidas, ora tristes ora alegres, sempre vitais! e os seres de luz, luz parda por vezes, luz branca, luz laranja, ainda assim, luz que não se paga nem tem preço!
o medo é um complemento vazio para o verbo que ninguém sente. ter não é ser.
gracias a la vida, que me ha dado tanto!
o medo é um complemento vazio para o verbo que ninguém sente. ter não é ser.
gracias a la vida, que me ha dado tanto!
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