quinta-feira

era uma vez um território soberano que tinha um povo dócil e desenrascado. num tempo não distante a revolução que derrubara um ditador foi gradualmente substituída por um desgoverno que despojava a população dos seus direitos elementares de cidadania, para os ofertar em forma de volumosos pacotes de dinheiro a uns quantos banqueiros, que por sua vez agradeciam aos governantes com cargos generosos, envelopes azuis e elogios. magotes de gente caí no desemprego e na depressão social mais profunda, mas como o povo era dócil e desenrascado cantava e gritava nas manifestações de rua com o mesmo empenho com que socorria os indigentes, cada vez em maior número. os ministros acossados pelo canto das pessoas que se indignavam com o roubo coletivo, a miséria em crescendo e sobretudo a desesperança, deixaram de aparecer em público. passaram a vender o país aos agiotas em tranches negociadas nos gabinetes. até que um dia, não se sabe bem como, tudo mudou.
É ... a letra E parece a janela da salvação deste país e das suas pessoas – E de emprego, que não existe. E de empréstimos a pagar. 
Logo surgem dois outros E, o de Emigração e o de Empreendedor. Se não tens Emprego, tens de ir para fora fazer pela vida, e se ficares só te resta ser uma espécie de empresário...
É, a alternativa é continuar Empenhado, a Estudar, ou a viver Encostado (à família, ao estado).


Espertos eles? Estúpidos nós? É hora de Escavacar esta encrenca.

domingo


"amanhã é sempre longe demais"
querido blog,
passaram nove meses desde que aqui estive. é fastidioso dizer o que se passou entretanto. tudo mudou. o quotidiano, o país, o sítio da casa, os amigos, as prioridades, a vida e a morte.

há mais tristeza, mais resiliência, menos confiança, menos conforto. foi-se a esperança, resíduo que ocupava o lugar da fé. ficou a coragem. foi-se a rotina, sobrou o tempo, porém desavindo. mantêm-se os amores, e o sol de inverno, e as memórias de experiência feita, o engenho desbaratado, e a crença de que isso basta.
cada dia é um sem-número de interrogações.

segunda-feira

.dasituaçao

e agora reparo que o blogger mudou radicalmente a infraestrutura. alguns blogues pararam literalmente num tempo passado, muito passado mesmo. outros, felizmente, continuam a produzir textos tão bons que não há igual noutro suporte, seja ele papel ou rede 'social'. a rita, do boas intenções, por exemplo.

migrante forçada para o facebook, acho que percebo o espaço de distensão que o blogger proporciona. e, bem vistas as coisas, eu sou mais daqui do que de lá. ainda que me falte a distensão do tempo e me sobre urgência do que foge todos os dias.ainda assim,




domingo

o lado bom de não ter tempo ou pachorra para vir escrever umas coisas no blogue que se recusa a fechar a porta é que se encontram nele coisas escritas há largas semanas ou meses e ainda assim vale a pena não desperdiçar:qualquer que tenha sido o contexto, houve uma parte de nós que protestou mansamente. os posts anteriores têm semanas de pousio.

sábado

pelo tempo que durar - marisa monte

o mal das pessoas calmas é que quando se emocionam com o que dizem, os olhos brilham mais, rola uma lágrima ou alguém lhes diz que estão a levantar a voz. as pessoas calmas passam a vida a camuflar as emoções e qual destranbelhado ao volante de um porshe desatam a humanizar-se pondo veemência no que sentem, naquilo que os outros entendem como agressividade. as pessoas calmas têm mil razões para não o serem, mas insistem que cada coisa tem o seu contrário e habitualmente refreiam os julgamentos. optam por coligir ditos alheios, factos avulsos, frases soltas e na calmaria do ser fazem um baú de questões que soltam justamente quando ninguém espera. as pessoas calmas são poços de contradições, com a grande vantagem de as águas serem tão límpidas que por mais profundo que seja o seu poço, qualquer um pode atravessar o amâgo das pessoas calmas. basta estar atento e, do alto da sua segurança, condescender com a insegurança das pessoas calmas. são traidas pela franqueza e não conseguem, pelo menos aparentemente, criar uma bolha de segurança onde se protejam das interações sociais. as pessoas calmas almejavam a ser budas ou madre teresas, mas são apenas seres de uma qualidade diferente. normalmente são boas pessoas

chove-não-molha

o mar anda agitado, cá fora chove-não-molha, o sol espreita tímido, a 'gente vai levando' - como diz o chico buarque.
há um pequeno bote, á vista da costa, entre as vagas sacudidas de modo alternado, e eu enjoo.
não mete medo o mar, nem a oscilação das pequenas ondas. nem sequer o frio e o vento que golpeiam os ossos, como se tanta carne no corpo não chegassem para poupar esse desconforto.
o mar oscila, pouco sibilino, muito húmido, e a meio metro da água ganha-se naturalmente a dimensão da nossa fragilidade. mas também quem disse que seríamos fortes... para que ser fortes ainda mais se ja somos uma competencia segura no trabalho.
nunca me pareceu que ser alien neste mundo. porque este mundo, o unico que conheço, é feito de gente tao diversa, e critérios tão fundamentais em qualquer decisão, que nunca me atreveria a questionar o seu sentido.
o problemazinho surge apenas quando teimo em desvalorizar incidentes, tons de voz, o peso das palavras. sempre fui de fatos e de tarefas, há um lado pragmático que me mantém á tona. como se fosse excessivamente cansativo tomar deccisões radicais de fechar o estore para sempre. gosto muito pouco de mim, mas gosto que gostem. gostar pouco porém, não impede que não me ature, a solo, com a sagacidade mínima para viver. pior é não rebentar a tensão que se acumula na mente, nas costas, na testa, nos olhos.pior é não comer simplesmente e depois ter enjoos. pior é ter vertigens e saber que algo anda desiquilibrado, nos meridianos do corpo. pior é não ter perspetiva do que se segue, nem ambição, nem vontade forte de me entregar. essa especie de a vegetar segura bem o presente, já nem liga ao passado, mas sabe que não há futuro. e para além da dor, nada ajuda a resolver. gosto de resolver, e passar á frente. mesmo que nesse passo esteja apenas o abismo.

terça-feira

like dislike

compromisso promessa
conversa mutismo
abertura preconceito
aprende cliché
sentimento discurso
avidez naúsea
ação conformismo
modéstia presunção
mimo frieza
carinho carrinho
ar livre fechado
espiritualidade religião
natureza deus
compaixão egotismo
mistério escandalo
alquimia farmácia
ritmo marasmo
presença ostracismo
emoção indiferença
revolução mudança
humano desumano
sensivel arrogância
princípios inconsequência
fraternidade hierarquia
diversidade monolitismo
crítica destruição
coerência camaleão
generosidade avareza
mundo pátria
coragem medo

domingo

... vou ali e já volto

que os meus amigos e amores sejam felizes, que não lhes falte a saúde e as condições de subsistência; que os cidadãos ganhem consciência universal e humanismo; que cada umX beba mais autocrítica e solidariedade; que contemos muitos instantes de bem-estar e desvalorizemos o que corre mal, e ainda assim o contrariemos com coragem e ação; que as boas pessoas cooperem; e se a luz se apagar, fiquem apenas memórias boas - e quem ficar siga na procura de um quotidiano melhor.

segunda-feira

anti-status-quo-vadis

e então, pensar maduramente que há coisas a decidir de uma vez por todas:
não esperes de outros o reverso do que fazes; não declares o profundo sentir, nem expresses as emoções em roda-livre; não descures o teu eu, e só o teu, eu, só; não antecipes as certezas amargas, mas não faças concessões para que tas oferendem; não fales, não fales, não fales; não opines, não azucrines, não respondas; não há ninguém ao teu lado, só (no) passado; o futuro é um caldinho de expetativas, não esperes, não conjetures, não desejes; não há presente mais que perfeito, nem imperfeito, nem composto; os tempos verbais não mudam na língua portuguesa; podes comprar um dicionário de verbos, e folhea-lo todo, mas não te percas com os reflexos...concentra-te no presente indicativo e descansa por vezes com o gerúndio, ...gozando.


determina as tuas regras, para ti e para o teu viver social; nada vive - parece - sem contrapartidas, nem a amizade, porventura nem o amor, e já nem tens idade para te apaixonares. se um dia te ocorre que no dolce fare niente e no calor do afago encontraste a tranquilidade destes tempos, desengana-te: tens aí um problema, porque sem controvérsia não há - parece - enamoramento, afeição, o que for.


termina ainda o que não consegues concluir, suportar, gerir, e isola-te com os seres que não te interpelam senão para uma lambidela. destila a dor e o desgosto em água quase tudo e cloreto de sódio, mas fá-lo a solo, não vás criar uma poça onde te afundes.


a uma dor que sintas na mão, no braço, no peito, na cabeça, lembra-te que há dores maiores que não doem em lugar nenhum e estão sempre presentes: aquela que vem da ausência permanente  e definitiva de alguém que amas, ou aquela outra que advém da doença matreira e persistente que te corroi sem perdão; e há as dores da desatenção, da falta de trabalho, do desencontro constante, da desorientação pessoal, da rotina. mas muitos sobrevivem com estas e uns poucos traçam-lhe um  fim 'egoista'. ora a escolha, em última análise, será tua.
por fim, cuida-te, cuida-te de fora, cuida-te para dentro, cuida-te na bolha de segurança com outros seres, cuida-te contendo a franqueza, segurando a vertigem, respirando fundo: bebe o sol quando ele aparecer, e controi reservas de sorrisos malandros, para ti, sozinha.

quinta-feira

amar alguém só pode fazer bem



o mais recente cd de marisa monte... é uma delícia!

terça-feira

sábado

não há mundo para estas palavras

um dia, se lhe dissessem com os olhos e com os lábios amo-te, um dia apenas que fosse, ela sentiria redimir-se dos golpes de azar, das vezes que errara, do muito que deixara por fazer, e das declarações silenciosas dela própria quando diz amo-te, pronunciado apenas uma vez sem bom senso.
há palavras que golpeiam e outras que curam, ou serão as mesmas, conforme se dizem ou se omitem?
há palavras que são pura expressão do sentir, percepção, corrente de ar, tropeção, refúgio, nudez.
certas palavras perdem o tempo, como nos perdemos no tempo de minudências infelizes.
um dia pode valer por mil dias, e um segundo trazer-nos de volta à superfície.


ps - dia internacional contra a violência doméstica. não há palavras que possam resumir o que penso do assunto. só repugnância e vergonha.

domingo

coisas da idade

menos tempo, mais rugas, menor visão, maior acuidade, felicidade simples, doenças graves, precariedade, isolamento, dores avulsas, alegrias efémeras, doses de paciencia, impertinencia casuística, revolta racional, afectos controlados, instantes de insensatez, procrastinação, desvalorização de tudo em medidas assimetricas para cada assunto.

quarta-feira

declaração de amor

"posso ir dormir hoje no quentinho do teu quentinho?"

sexta-feira

a preguiça é descomunal

agora, finalmente, a expressão "vemo-nos gregos" faz sentido.
a lua é negra e carente.
o inverno verdadeiramente molhado, chega mais cedo.
o outono é quente.
a cabeça não tem ideias claras, aliás não tem ideias.
há demasiada gente ocupada em degladiar um poder que não existe.

o mundo parece um lugar sombrio sem fim.
não há luz ao fundo do túnel, que ninguém penetrou.
todos os apetites vão para coisas futéis: sexo, silêncio, solidão, séries.