terça-feira

As Pessoas Sensíveis
Sophia de Mello Breyner Andresen

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

in Livro Sexto, 1962

quarta-feira

famelga, política, tarefa, tabaco, fetiche, gastronomia.
tão depressa gostamos, como deixamos de gostar.
é isso.

terça-feira

nasceu nos anos 60, mas foi nos oitenta que viveu mais feliz.  era livre. 
gostava de história e de jornais. planeou ser socióloga mas foi ter ao ofício da concisão e da celeridade. a escola de vida foi a telefonia. nada no tempo lhe é estranho.
e reportou carnavais, cemitérios, campanhas eleitorais. estudou comunicação, gestão e ensinou jornalismo, fez noticiários e crónicas na rádio, dossiês temáticos em revistas, reportagens, entrevistas e breves nos jornais, e até fez fretes nos anos spindoctor. tememos esqueletos em armários até que vendemos a alma ao diabo. 
faz transcrições, edições  e instigações. the new media is the blackmail media.
deambula entre bolos, tartes e pensamentos tolos, entremeando trabalhos académicos para dar consistência a si mesma como sobrevivente. 
tem uma família, filhos, algumas amizades e um contingente de conhecidos. muitos recuerdos. nenhuma crença. não volta nunca aos lugares onde foi feliz. 
há muita coisa que não sabe explicar. lamenta pouco, sentir quase nunca faz bem.
gostaria de  não ter perdido a intuição.
pensa que «anda (muito menos de) meio-mundo, a enganar outro meio». 
dorme tarde, sem sono, de consciência tranquila.  
é noctívaga, invernosa, solarenga. não sabe nada da vida. continua a gostar de histórias de pessoas,  
em algum momento descarrilou do futuro promissor. mas ainda pasma com um dia claro e harmonioso. e chora com narrativas de dilemas de gente.
reconcilia-se um pouquinho a olhar a lua cheia e no barulho do mar. 
talvez um dia consiga chegar ao tibete ou passear nas praias de goa. 

domingo

 Maria Maria Acha Kutscher juntou os movimentos ocuppy, 15M, feministas,...para uma galeria fantástica de retratos de mulheres revoltadas e irreverentes, dos nossos dias, no projeto As INDIGNADAS (imagem deste e de outros projetos da criadora):

sexta-feira

umbiguismo
nós, a grécia,a alemanha, em troca de galhardetes, pretexto para esplanar sapiências várias, elogios a 'deus' grego, ironias sobre patetas que desgovernam,
e depois há isto: os imigrantes que naufragam no mediterrâneo, os hediondos crimes do dito estado islâmico, os terroristas boko haram,...


europa


o lixo que é o discurso de virgem ofendida sempre me entediou - ai, agora a troika tem de reparar o rombo, ainda que a dignidade de Portugal não tenha sido beliscada, enfim, nem se ouvem entre eles... - o autismo em relação ao outro é uma chaga transversal.
prefiro escutar o dialogo de surdos a leste. sobre o eixo berlim-atenas só nos próximos 120 dias veremos se o copo ficou meio cheio ou meio vazio.
em nenhum caso será o fim do mundo.


quinta-feira

ela é uma das duas cartoonistas retratadas no documentário "CARICATURISTES, Fantassins de la démocratie" (2014): nadia khiari e o seu "willis from tunis" - sim, há toda uma filosofia à volta dos gatos...

domingo

o são valentim, provavelmente, nunca imaginou que iria tornar-se uma obsessão de consumo em pleno século XXI.
à pala do são valentim valorosXs namoradXs confessam as suas paixões a cada 14 de fevereiro, em plena praça públca e com altifalantes de feira. o namoro é o primeiro passo para nos levarmos a sério.
o dia dos namorados é, de todas as efemérides, a mais absurda. assinala o que não existe: o gosto de gostar de alguém, com líbido, prazeirosamente e ad eterno. o amor, para ser mais simples.
ora, o amor é uma mistificação, um vício, uma droga.
agarra-te e nunca mais consegues quebrar a dependência dessa ilusão. pelos momentos de prazer e encantamento passarás dez vezes mais tempo a penar, sofrendo.
e a cada revés, sofres ainda mais. e em cada uma dessas dores exponenciais, vais desejar a morte.
é uma cena demasiado melodramática essa: o amor torna-nos sériXs, e raramente somos pessoas divertidXs por muito tempo - a nossa vida descamba.
depois, mais cedo do que tarde, voltarás a cair na esparrela. apaixonas-te. a paixão consome. melhor seria o são valentim sumir com a paixão. mas não.

em nome da paixão mata-se, agride-se, chantageia-se, domina-se outrem. há lá coisa mais maniqueísta?
a paixão humana, com pessoas que não são família, é uma traição à liberdade, um golpe baixo na autonomia dos seres, uma reles compensação à solidão.
a paixão inverte a lógica racional; pior ainda, mete-a no baú dos segredos e passa a governar a nossa vida sem regra alguma. a paixão é um carrocel de emoções, uma montanha russa de desvarios, promessas tontas, juras de vida entre gambuzinos, ninguém fica em bom estado depois da experiência.
exponencialmente tornas-te mais infeliz.
e depois da paixão - antes dela é pouco provável, em paralelo talvez - há o amor, o tal dom em que cupido controla os terráqueos e estes se tornam gentinha tonta e, na melhor as hipóteses, sofredora mais tarde que cedo. mas infeliz sempre, pensando porém que estão 'bafejados pelo amor'.
o amor, enfim, é o veneno mais sorrateiro que conheço, o embuste mais que perfeito. se dá, tira em dobro. se tira, sonega em triplo. perdes sempre.

quarta-feira

as gentes da dita região saloia não têm culpa por serem usadas na expressão.
há saloios a mais em lisboa na esquerda.caviar.djambé.pensadora.
quase sempre aos pares, um saloio seguido de uma saloia. no instante posterior a ele perorar (reconheçamos toda uma problemática identitária...)  ela abana a cabecinha como aqueles cães de porcelana sobre colcha de renda a decorar o porta-bagagens dos automóveis. pode ser o abanar da cabecinha, pode ser a repetir a frase de trás para a frente, a salivar a mensagem no mesmo tom arrogante.
com este personagem se cozinha a nossa sociedadezinha civil, pequenina, persporrenta, convencida, autoritária.
e assim cultiva estatuto nas múltiplas nano-micro-associações .
discutem, estes ativistas, questões de uma essencialismo absoluto, onde tentam como gatos ensacados trepar o protagonismo, como se disso dependesse a sua sobrevivência.
discutem coisas tão seletas como o quão perigoso e errado é chamar apenas marcha, a uma marcha que o é de nome e de história, e onde querem injetar à força toda o sentido de manifestação - ainda que todos os anos se arrisquem reduzir o evento ao grupo de amigos com quem têm converseta de café; abusam dos anglicismos pois é muito mais culto e respeitável, já que a língua portuguesa é (cheia de) pobre (de espírito); impõem sem cerimónia os únicos pre-conceitos toleráveis, os do se grupo que não representa senão eles mesmos; com esta superlativa autosuficiência autista, assumem ser as cabeças pensantes de não um, não dois, mas três, quatro, cinco supostas organizações políticas, cada uma das quais não consegue juntar cinco pessoas.
nunca me esquecerei da desfaçatez com que uma destas ativistas, um dia, disse sem pudor: "qualquer dia não tenho braços para levar todas as bandeiras dos movimentos que represento".
então, cadê os outros? ps - o pior mesmo são estas mulheres que se comportam sempre como nº2.





Fernanda Takai e Zélia Duncan - Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme

terça-feira

tempos modernos II

    andando em trabalhos, à procura, dou com Sophia M.B.A. em 1989, maravilhosa:
    «A Grécia tem uma forte consciência do caos, quer dizer, o caos é o principio de tudo. O grego não tem a noção de pecado mas tem consciência que o crime vem estragar a ordem. O caos está latente, pode sempre soltar-se a qualquer momento.
    Eu penso que o caos e essa noite, a noite das feiticeiras, aquelas personagens todas macabras, também existem na Grécia. A Grécia não é só apolínea, é dionisíaca, e também tem aqueles deuses nocturnos……O que tem é tudo mais bem equilibrado, mais bem arquitectado.»
    (...)

    «Eu às vezes penso como é que é possível que o Mundo seja tão mal governado. É tudo advogados e economistas, pessoas que têm uma noção muito parcial da realidade muito desencarnada…»
tempos modernos I

agora, em espanha, o nº 3 do partido-sensação-putativo vencedor 2015,  podemos, é acusado de ter para cima de 600 mil euros ganhos em consultoria politica e não fiscalizados. aliás, tributados pelo menor imposto, que é o que acontece quando se cria uma empresa  de propósito para pagar menos. em vez de assumir, pedir desculpa, corrigir o erro e prometer não repetir, o homem e o seu partido-revelação negam, refutam e sublimam.
até parece que a bosta é sempre igual, só mudam as moscas...
vamos lá a ver:; não há complô nenhum, nem mesmo se os media que denunciam são 'do arco do poder'. há histórias mal contadas em que simplesmente  os factos saem da gaveta gritando por uma explicação verosímil à luz do dia.
não adianta assobiar, chamar nomes ou puxar cabelos.

é pensamento recorrente, aquele do poeta que diz "viver sempre também cansa".
cansa mesmo, mas mais que o viver, cansam os vícios de enrolanço com que as pessoas se entretêm a complicar a vida alheia.
liguem o descomplicómetro, por favor.

domingo


decidiu que doravante ia ser elx, mais elx e o mundo que se dane.

pois que se esparrame nas dores cruzadas, sofrimentos alheios e nas polémicas dos outros. decidiu também que nunca mais - tanto quanto nunca mais existe - as coisas seriam se não da sua forma, do seu modo de fazer próprio. foi um grito-mudo-de-ipiranga. um parágrafo às concessões, tolerâncias, satisfações e problematizações. 

e aí começou a domingar.

sábado


humor agridoce I

"...quero que te afogues nos teus clichés".

sexta-feira

a arrogância da ignorância. custa!
porque os factos não são escrutinados, a pesquisa não é incansável e a experiência é demasiado limitada.
- filha, não tens vaidade nenhuma...!

a vaidade, o brio de se ver ao espelho, o argumento do galanteio, essa coisa de que as feministas suspeitam em dúvida metódica,... a vaidade do aspecto, deuses!, a vida mostra que (isso) é um salvo-conduto para muita coisa na vidinha. 
então, entre um tempo que avança e um espaço de memória, quedas-te imóvel, ancorada para as necessidades mais básicas. pensas com a agilidade de um gatilho oleado e o físico não responde. 
há nesse intervalo de passividade revoltante um compasso de rendição pessoal.
espera que te movas.


segunda-feira


por elas, pelas outras, por aquelas que não falam, por nós, pelas que virão, pelas que nunca tiveram consciência, pelas que se foram por ter toda a consciência, pelas mulheres do mundo inteiro, pobres e ricas, cultas e analfabetas, orgulhosas e deprimidas, lindas e feias, boas e más, dondocas e proletárias, putas e freiras, cidadãs e ácidas, joviais e velhas, daqui e de longe, de hoje e de sempre,... e por estas:


terça-feira

a rapariga das tranças ajoelhou-se, de mansinho.
lá atrás, pela perdição das almas, desencarrilou.
nada do que diz, toque ou faça, a traz de volta.

os olhos estão cansados e o coração doente.
algures no tempo, o trilho enfureceu-se com o caminhante.
o pião está sem baraço-abraço no labirinto.
por muito que soe a chuva, a inundação afoga a mente.

sábado

a cena é:
esqueces onde deixaste o carro? está na hora de te desfazeres dele
sofres muito quando pagas um maço de tabaco? tens de procurar rapidamente alternativa
colocas a manteiga no armário do açucar? há certamente uma desregulação territorial doméstica
sobra-te demasiado mês depois do salário em conta a zeros? é tempo de te alheares do dinheiro
não te lembras de conseguir desligar a cabeça, ao fim de um dia? tens um problema sério!
quando é difícil manteres-te acima da linha de água, a mente vagueia até ao passado.
tiras de lá frases definitivas sobre o amor.
desistes dele quando percebes que a outra pessoa não te acudirá na medida do que farias por ela.
o amor encerra-se aí, nessa cortina opaca que não te deixa ver o futuro mais imediato.
podes não vislumbrar nada de positivo, mas precisas sempre de uma réstia de esperança.
apesar de teres sempre o sol lá fora e o mar a uns quilómetros, há uma necessidade intrínseca.
sobreviver ao dia - e à noite - pode tornar-se penosamente pouco salubre.
e, no entanto, tens sempre o tempo a fluir. agarra-te ao presente.

(da série: memórias que queimam)

quarta-feira

a menina pequenina, na sua grande falta de mundo, encontrou uma menina grandita que tinha o mundo todo no seu ego. que bom!as meninas peritas em lapsos de bastidor, quando fazem acrobacias em bichos-de-pé, parecem um bicho-da-seda a tecer uma serapilheira.
empalham dichotes como se fossem profundos pensamentos, após pensarem em conjunto, num suposto convívio de neurónios saltitantes. é toda uma cultura por explorar, a dos sub-trinta-engagés.
juntas, as meninas fariam novos jogos florais: um clube de meninas que gostam de pensar em conjunto. e dizer coisas. e refletir. verborrear - arrear o verbo, por outras palavras. 
quanto mais verborreia menos se realiza.

segunda-feira

aprende-se muito com as pessoas. com todas. com a má-fé nos atos e a candura das intenções. aprende-se com o que falam, com o que fazem, como se movimentam.
aprende-se sobretudo com a incongruência das narrativas, dos desempenhos.
aprende-se com as palavras-chave dos discursos - coletivo, partilha, humildade, mudança, solidariedade,... aprende-se com as manifestações de um ego ululante e a insidiosa petulância . aprende-se com o não-dito.
a ética é hoje uma equação francamente falível.

terça-feira

o sonho de Wadjda, num mundo estranho:

sábado

¿Te das cuenta Benjamín? El tipo puede cambiar de todo: de cara, de casa, de famila, de novia, de religión, de Dios... pero hay una cosa que no puede cambiar, Benjamín... no puede cambiar... de pasión.

dizem que é a melhor cena de O segredo de teus olhos,  filme argentino.


mas quanto tempo dura uma paixão? o instante de um bater de pálpebras? uma noite mal dormida?seis meses de folia? dois anos de descoberta? 20 anos de convivência? 50 anos de resistência? umas horas de estupefação? uns momentos de maravilhamento? trinta dias de surpresa? sem dias de inebriamento? ou só a mudança de lua?
a paixão dura para sempre, enquanto dura o ser que a transporta.
dura o tempo em que recordamos o estalar da paixão.
dura o que nenhum contratempo da vida derrota.
dura os minutos em que o gato saltita entre os pingos da chuva.
dura enquanto conseguimos rir-nos muito e não esquecemos de como isso é importante.
dura enquanto fazemos o deve e haver e a recordação do instante aquece a alma.

terça-feira

dantes, se estudasses afincadamente ou assim-assim, tinhas um emprego esfalfado, feito de recibos verdes, avenças quando deus quer, bolsas de tirocínio, e um dia a vida encarreirava-se
agora, mesmo que estudes esfalfadamente, até podes ter diploma de médico, de leis ou de engenharia, mas vais sair com ele à cata de uma caixa registadora onde não vasculhem as habilitações, para conseguires trabalho.
e com um bocado de sorte grande, passas umas dúzias de horas a arrumar mercearias em paletes e estas no armazém, para trazeres um ordenado mínimo regular. e a vida descarrila nesse caminho.

dantes, havia uma coisa que te protegia na vida laboral, chamada leis do trabalho, e outra coisa que funcionava, chamada inspeção
e havia uma entidade pouco ruidosa mas que servia para pôr patrões em sentido - chamava-se sindicato - que impunha uma coisa chamada contrato coletivo de trabalho, e nele fazias finca pé.

agora, contas os dias que faltam até ao fim do mês para saberes quantos salários em atraso faltam para ires até ao iefp nas apresentações quinzenais - obrigação que partilhas com os suspeitos de crime que cumprem termo de identidade e residência.
não há a mais pequena expectativa de que algo mude: à boca cheia todos te aconselham a que te mudes - que emigres, pois.

no rame-rame dos dias, não sei como ainda não espetaste um balde de tinta no senhor desgoverno.

segunda-feira

olhei para o céu,
esta(va) estrelado,
não vi deus nem menino,
senti-me em mísero estado.

ps - amanhã, certamente, não chove

quinta-feira

uma tristeza pequenina, persistente, incómoda, como a chuva morriña.
um vazio sem norte, como o desgosto profundo
uma incerteza fina, como o golpe de navalha

o tempo também nos dá isso: a imobilidade no pensar, nem sequer é reflexão, ponderação,... é só mesmo não saber o que pensar, como agir.
e outra vez, a tristeza morriña e o vazio a pesar pesado.


porque me apetece dizer isto, com Drummond

Definitivo, como tudo o que é simples: nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional." (Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira

foi há muitos anos. a violência, sob a forma de prepotência(de um poder paternal) e depois com gestos de dor, levou-a a afastar-se. vários homens depois, a cena repetiu-se longa e pausadamente- e ela a descrer. até que um dia, na exacerbação dos gestos e dos gritos e das ameaças, ela disse em si para consigo que se afastava daquele mal.
mas por muito que o tempo passe, os comportamentos replicam-se como sequelas de um filme podre.
a violência - conta ela - começa com chamada de atenção porque não estamos atentas ao nosso amor, não cumprimos as tarefas domésticas, centramo-nos no trabalho, ou nos outros, ou porque nos vestimos desadequadamente, ou porque não mandamos mensagens, ou mandamos demais, ou porque...
a violência nas relações de afecto começa pelo egoísmo da pessoa agressora, autocentrada, controladora, possivelmente carente, possivelmente muito senhora de si, e acaba na despersonalização da pessoa vítima. "eu exijo a tua atenção mas não me interessa assim tanto a tua vida" ou " ama-me e elogia-me, venera-me até, mas pouco me importa se te dou um abraço quando precisas". uma relação de poder desigual numa relação de caracter amoroso é uma violência sobre ser-se pessoa.
na melhor das hipóteses, há um momento em que resgatamos o amor igualitário ou recuperamos a pessoa livre que somos.

domingo

há muitos, muitos anos,  Simone, a brasileira, cantava "começar de novo, e contar comigo, vai valer a pena...".
o resto pouco importa porque é uma cantiga, e as cantigas é suposto rimarem.
a cantiga virou um clássico, certamente por ter estado na banda sonora de uma das primeiras e raras séries feministas da televisão... tenho saudades confesso dessa revelação audiovisual que foi Malu Mulher.
a cantiga. lembrei-me dela uma dúzia de anos depois de me ter lembrado dela com o mesmo sentimento. há coisas que acontecem contra nossa vontade e é estupido contraria-las. e acontecem recorrentemente. como se a mãe-natureza nos quisesse estimular os neurónios a não seguir os mesmos caminhos, na esperança que nos levem a um sítio maduro e tranquilo. provavelmente nenhum caminho nos leva lá, se calhar o lugar nem existe, se calhar já foi tomado, se calhar destruímo-lo sem querer. se calhar havemos de o ver de longe, como a criança que desejava uma casa de brincar e nunca a teve, e passa a vida a arranjar casas a pensar que será a sério.

faço de conta que ele sou eu e a cantiga tem o mesmo desfecho


sábado

voltamos aos lugares onde fomos felizes ou desesperad@s porque sobrevivemos. na imperfeição de tudo há um certo sentido. perceber que algo os ultrapassa, sem que seja perceptível, desconstrói-nos a paciência.
e de novo tecemos mil fios para dar um sentido perdido ao quotidiano. e nesse mister perdemos o sem nexo da procura, para nos enredarmos na teia que nós mesm@s construimos.
se soubesse fazê lo, derrubaria os muros das minhas convicções, para deixar-me ir na corrente do desleixo e não me consumir com o rigor mortal desta vida gregária.
às vezes, precisava de não ser tão severa comigo e muito mais intolerante com outr@s. uma pitada de sonsice aqui, um qb de alienação ali e umas gramas de dramaturgia, pois... não é a vida um palco?

terça-feira


Gosto do trabalho, e quando não gosto nota-se e não é nada bom. Mas não sou obcecada pelo trabalho, simplesmente gosto de fazer coisas, bem feitas, que façam sentido e se possível um sentido especial. Conheci pessoas que são obsessivas com  o trabalho,sim,  extraordinariamente obsessivas, cada uma com os seus próprios factores de motivação. Para umas a felicidade do trabalho prolonga-se, noutras acaba por traí-las. Eu, eu, simplesmente contento-me em ter trabalho e  fazê-lo bem, e isso implica com gosto. Como diz alguém, “sempre em acção”… mas, na verdade, tem dias…
Acontece é que faço muitas coisas sequencialmente, quase ao mesmo tempo – acudo às pessoas amigas, preocupo-me com os progenitores, acalento a descendência e sim, gosto de passar bons momentos com o meu amor. Sem cobranças patológicas, sem obsessões de veneração, sem desaguisados inúteis… tentando, pelo menos. Mas nada disso tem o mesmo prazer se não consigo ter os meus próprios momentos a sós comigo, onde crio e invento e arrumo e procrastino os mil-afazeres que tenho entre-mãos  Agora escrevo este texto, saltito no facebook gerindo páginas, elaboro um plano de sessão e combino uma entrevista…
E o trabalho, sim, o trabalho. O nazismo dizia que “o trabalho liberta” e a desempregada do Portugal de agora concede que está demasiado liberta do trabalho. Ironias da vida!
Quem já passou pela vontade de querer trabalho e não o ter, valoriza o pouco que tem e passa os dias a escarafunchar possibilidades remotas de trabalho futuro, precário, ocasional, temporário, efémero, rude, intelectual, inovador, rotineiro, na medida do sustento das necessidades básicas. 
E, é verdade… quem nunca experienciou o desemprego,  não pode ter a noção da fragilidade dos dias que vivemos, tão tortos de sem-direitos.

domingo

femen.istas

ELAS MOVEM-SE... de Kiev (2008) para Paris, há um ano atrás, agora para Madrid, elas estão no Canadá, no Brasil, no México, um pouco por toda a Europa, na bacia do Mediterrêneo islâmico, em Israel, pelo mundo, por aí, onde o patriarcado é mais violento, a vida mais dura, as mulheres mais discriminadas. nos lugares onde a indústria da prostituição se instala, onde a hierarquia dos credos - todas as religiões abandonaram as femêas - faz lei, onde os ditadores se fazem eleger... os corpos são as armas, já não são alvo de cobiça. as vítimas assemelham-se agora a carrascos. o sexismo é arma das novas feministas que as menos novas desconsideram, impotentes no dolce fare niente das últimas décadas. as ruas são onde a brigada de guerrilha arremessa os protestos. Não há revoluções perfeitas, não há revoltas preparadas, mas há gente mais eficaz nos modos de agir, e para isso é sempre necessário NÃO SER INVISIVEL, falar alto, tirar partido do sistema mediático, globalizado, da sociedade do espectáculo - passar mensagens simples. Parabéns Inna Shevchenko, obrigad@ às FEMEN International! We will fight the patriarchy together! [facebook.com/coletivofeministaradical]

sábado

...o valioso tempo dos maduros, de mário de andrade

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral. As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial! Mario de Andrade (1893 - 1945)

sábado

de passagem

estou no posto de saúde, na polícia, dentro e fora de grades,
estou na escola, no restaurante, na arcada da praça,
estou no escritório, a limpar o pó de madrugada, a fazer relatórios fora de horas, 
estou na estrada, em transito de autocarro, em viagem acelerada, à procura de nada,
estou no palco, à espera do público, sem subsídio, desejando que me amem,
estou no hospital, a abrir corações, a dissecar passados, a segurar a morte,
estou no alpendre, a saborear o vento quente, a escutar a chuva, a desejar o horizonte,
estou no cais, à chegada, à partida, como carga, sem mais



o (m)eu não é um lugar seguro


quarta-feira

há lá coisa mais triste que descobrir que nos enganamos repetidamente?
um dia descubro que tudo faz um sentido desajustado. não é preciso ter sonhos, nem carreira, nem objetivos de vida - sim, nunca os tive. um dia acordas de uma noite que não dormiste e perguntas-te se vale a pena arrastar uma parceria por umas migalhas de afeto, sabendo embora a resposta de antemão. um dia, seguras com força as lágrimas e tentas focar-te nas coisas práticas e reais: escrevinhas listas de tarefas e pendentes para dar vazão nos próximos dias, reflexionas sobre estratégias de fuga da confusão em que se tornou a vida doméstica e a outra, e projetas adelante da vida quotidiana. mudar de casa, mudar de gastos, mudar de hábitos, mudar de cidade, vender tecnologia, doar livros, arranjar destino para a roupa. não gastar mais que uma semana na partição dos bens, receber colo, receber abraços, e chorar até que tudo passe e a tendência para a autocensura se dilua no pragmatismo das soluções. por último, deixar os auto-juizos a marinar num baú perdido, na convicção de que como habitualmente, por melhor intencionada que esteja, nunca terei tempo de arrumar as minhas tralhas todas, antes de partir...

quinta-feira

era uma vez um território soberano que tinha um povo dócil e desenrascado. num tempo não distante a revolução que derrubara um ditador foi gradualmente substituída por um desgoverno que despojava a população dos seus direitos elementares de cidadania, para os ofertar em forma de volumosos pacotes de dinheiro a uns quantos banqueiros, que por sua vez agradeciam aos governantes com cargos generosos, envelopes azuis e elogios. magotes de gente caí no desemprego e na depressão social mais profunda, mas como o povo era dócil e desenrascado cantava e gritava nas manifestações de rua com o mesmo empenho com que socorria os indigentes, cada vez em maior número. os ministros acossados pelo canto das pessoas que se indignavam com o roubo coletivo, a miséria em crescendo e sobretudo a desesperança, deixaram de aparecer em público. passaram a vender o país aos agiotas em tranches negociadas nos gabinetes. até que um dia, não se sabe bem como, tudo mudou.
É ... a letra E parece a janela da salvação deste país e das suas pessoas – E de emprego, que não existe. E de empréstimos a pagar. 
Logo surgem dois outros E, o de Emigração e o de Empreendedor. Se não tens Emprego, tens de ir para fora fazer pela vida, e se ficares só te resta ser uma espécie de empresário...
É, a alternativa é continuar Empenhado, a Estudar, ou a viver Encostado (à família, ao estado).


Espertos eles? Estúpidos nós? É hora de Escavacar esta encrenca.

domingo


"amanhã é sempre longe demais"
querido blog,
passaram nove meses desde que aqui estive. é fastidioso dizer o que se passou entretanto. tudo mudou. o quotidiano, o país, o sítio da casa, os amigos, as prioridades, a vida e a morte.

há mais tristeza, mais resiliência, menos confiança, menos conforto. foi-se a esperança, resíduo que ocupava o lugar da fé. ficou a coragem. foi-se a rotina, sobrou o tempo, porém desavindo. mantêm-se os amores, e o sol de inverno, e as memórias de experiência feita, o engenho desbaratado, e a crença de que isso basta.
cada dia é um sem-número de interrogações.

segunda-feira

.dasituaçao

e agora reparo que o blogger mudou radicalmente a infraestrutura. alguns blogues pararam literalmente num tempo passado, muito passado mesmo. outros, felizmente, continuam a produzir textos tão bons que não há igual noutro suporte, seja ele papel ou rede 'social'. a rita, do boas intenções, por exemplo.

migrante forçada para o facebook, acho que percebo o espaço de distensão que o blogger proporciona. e, bem vistas as coisas, eu sou mais daqui do que de lá. ainda que me falte a distensão do tempo e me sobre urgência do que foge todos os dias.ainda assim,




domingo

o lado bom de não ter tempo ou pachorra para vir escrever umas coisas no blogue que se recusa a fechar a porta é que se encontram nele coisas escritas há largas semanas ou meses e ainda assim vale a pena não desperdiçar:qualquer que tenha sido o contexto, houve uma parte de nós que protestou mansamente. os posts anteriores têm semanas de pousio.

sábado

pelo tempo que durar - marisa monte

o mal das pessoas calmas é que quando se emocionam com o que dizem, os olhos brilham mais, rola uma lágrima ou alguém lhes diz que estão a levantar a voz. as pessoas calmas passam a vida a camuflar as emoções e qual destranbelhado ao volante de um porshe desatam a humanizar-se pondo veemência no que sentem, naquilo que os outros entendem como agressividade. as pessoas calmas têm mil razões para não o serem, mas insistem que cada coisa tem o seu contrário e habitualmente refreiam os julgamentos. optam por coligir ditos alheios, factos avulsos, frases soltas e na calmaria do ser fazem um baú de questões que soltam justamente quando ninguém espera. as pessoas calmas são poços de contradições, com a grande vantagem de as águas serem tão límpidas que por mais profundo que seja o seu poço, qualquer um pode atravessar o amâgo das pessoas calmas. basta estar atento e, do alto da sua segurança, condescender com a insegurança das pessoas calmas. são traidas pela franqueza e não conseguem, pelo menos aparentemente, criar uma bolha de segurança onde se protejam das interações sociais. as pessoas calmas almejavam a ser budas ou madre teresas, mas são apenas seres de uma qualidade diferente. normalmente são boas pessoas

chove-não-molha

o mar anda agitado, cá fora chove-não-molha, o sol espreita tímido, a 'gente vai levando' - como diz o chico buarque.
há um pequeno bote, á vista da costa, entre as vagas sacudidas de modo alternado, e eu enjoo.
não mete medo o mar, nem a oscilação das pequenas ondas. nem sequer o frio e o vento que golpeiam os ossos, como se tanta carne no corpo não chegassem para poupar esse desconforto.
o mar oscila, pouco sibilino, muito húmido, e a meio metro da água ganha-se naturalmente a dimensão da nossa fragilidade. mas também quem disse que seríamos fortes... para que ser fortes ainda mais se ja somos uma competencia segura no trabalho.
nunca me pareceu que ser alien neste mundo. porque este mundo, o unico que conheço, é feito de gente tao diversa, e critérios tão fundamentais em qualquer decisão, que nunca me atreveria a questionar o seu sentido.
o problemazinho surge apenas quando teimo em desvalorizar incidentes, tons de voz, o peso das palavras. sempre fui de fatos e de tarefas, há um lado pragmático que me mantém á tona. como se fosse excessivamente cansativo tomar deccisões radicais de fechar o estore para sempre. gosto muito pouco de mim, mas gosto que gostem. gostar pouco porém, não impede que não me ature, a solo, com a sagacidade mínima para viver. pior é não rebentar a tensão que se acumula na mente, nas costas, na testa, nos olhos.pior é não comer simplesmente e depois ter enjoos. pior é ter vertigens e saber que algo anda desiquilibrado, nos meridianos do corpo. pior é não ter perspetiva do que se segue, nem ambição, nem vontade forte de me entregar. essa especie de a vegetar segura bem o presente, já nem liga ao passado, mas sabe que não há futuro. e para além da dor, nada ajuda a resolver. gosto de resolver, e passar á frente. mesmo que nesse passo esteja apenas o abismo.

terça-feira

like dislike

compromisso promessa
conversa mutismo
abertura preconceito
aprende cliché
sentimento discurso
avidez naúsea
ação conformismo
modéstia presunção
mimo frieza
carinho carrinho
ar livre fechado
espiritualidade religião
natureza deus
compaixão egotismo
mistério escandalo
alquimia farmácia
ritmo marasmo
presença ostracismo
emoção indiferença
revolução mudança
humano desumano
sensivel arrogância
princípios inconsequência
fraternidade hierarquia
diversidade monolitismo
crítica destruição
coerência camaleão
generosidade avareza
mundo pátria
coragem medo

domingo

... vou ali e já volto

que os meus amigos e amores sejam felizes, que não lhes falte a saúde e as condições de subsistência; que os cidadãos ganhem consciência universal e humanismo; que cada umX beba mais autocrítica e solidariedade; que contemos muitos instantes de bem-estar e desvalorizemos o que corre mal, e ainda assim o contrariemos com coragem e ação; que as boas pessoas cooperem; e se a luz se apagar, fiquem apenas memórias boas - e quem ficar siga na procura de um quotidiano melhor.

segunda-feira

anti-status-quo-vadis

e então, pensar maduramente que há coisas a decidir de uma vez por todas:
não esperes de outros o reverso do que fazes; não declares o profundo sentir, nem expresses as emoções em roda-livre; não descures o teu eu, e só o teu, eu, só; não antecipes as certezas amargas, mas não faças concessões para que tas oferendem; não fales, não fales, não fales; não opines, não azucrines, não respondas; não há ninguém ao teu lado, só (no) passado; o futuro é um caldinho de expetativas, não esperes, não conjetures, não desejes; não há presente mais que perfeito, nem imperfeito, nem composto; os tempos verbais não mudam na língua portuguesa; podes comprar um dicionário de verbos, e folhea-lo todo, mas não te percas com os reflexos...concentra-te no presente indicativo e descansa por vezes com o gerúndio, ...gozando.


determina as tuas regras, para ti e para o teu viver social; nada vive - parece - sem contrapartidas, nem a amizade, porventura nem o amor, e já nem tens idade para te apaixonares. se um dia te ocorre que no dolce fare niente e no calor do afago encontraste a tranquilidade destes tempos, desengana-te: tens aí um problema, porque sem controvérsia não há - parece - enamoramento, afeição, o que for.


termina ainda o que não consegues concluir, suportar, gerir, e isola-te com os seres que não te interpelam senão para uma lambidela. destila a dor e o desgosto em água quase tudo e cloreto de sódio, mas fá-lo a solo, não vás criar uma poça onde te afundes.


a uma dor que sintas na mão, no braço, no peito, na cabeça, lembra-te que há dores maiores que não doem em lugar nenhum e estão sempre presentes: aquela que vem da ausência permanente  e definitiva de alguém que amas, ou aquela outra que advém da doença matreira e persistente que te corroi sem perdão; e há as dores da desatenção, da falta de trabalho, do desencontro constante, da desorientação pessoal, da rotina. mas muitos sobrevivem com estas e uns poucos traçam-lhe um  fim 'egoista'. ora a escolha, em última análise, será tua.
por fim, cuida-te, cuida-te de fora, cuida-te para dentro, cuida-te na bolha de segurança com outros seres, cuida-te contendo a franqueza, segurando a vertigem, respirando fundo: bebe o sol quando ele aparecer, e controi reservas de sorrisos malandros, para ti, sozinha.

quinta-feira

amar alguém só pode fazer bem



o mais recente cd de marisa monte... é uma delícia!

terça-feira

sábado

não há mundo para estas palavras

um dia, se lhe dissessem com os olhos e com os lábios amo-te, um dia apenas que fosse, ela sentiria redimir-se dos golpes de azar, das vezes que errara, do muito que deixara por fazer, e das declarações silenciosas dela própria quando diz amo-te, pronunciado apenas uma vez sem bom senso.
há palavras que golpeiam e outras que curam, ou serão as mesmas, conforme se dizem ou se omitem?
há palavras que são pura expressão do sentir, percepção, corrente de ar, tropeção, refúgio, nudez.
certas palavras perdem o tempo, como nos perdemos no tempo de minudências infelizes.
um dia pode valer por mil dias, e um segundo trazer-nos de volta à superfície.


ps - dia internacional contra a violência doméstica. não há palavras que possam resumir o que penso do assunto. só repugnância e vergonha.

domingo

coisas da idade

menos tempo, mais rugas, menor visão, maior acuidade, felicidade simples, doenças graves, precariedade, isolamento, dores avulsas, alegrias efémeras, doses de paciencia, impertinencia casuística, revolta racional, afectos controlados, instantes de insensatez, procrastinação, desvalorização de tudo em medidas assimetricas para cada assunto.

quarta-feira

declaração de amor

"posso ir dormir hoje no quentinho do teu quentinho?"

sexta-feira

a preguiça é descomunal

agora, finalmente, a expressão "vemo-nos gregos" faz sentido.
a lua é negra e carente.
o inverno verdadeiramente molhado, chega mais cedo.
o outono é quente.
a cabeça não tem ideias claras, aliás não tem ideias.
há demasiada gente ocupada em degladiar um poder que não existe.

o mundo parece um lugar sombrio sem fim.
não há luz ao fundo do túnel, que ninguém penetrou.
todos os apetites vão para coisas futéis: sexo, silêncio, solidão, séries.

segunda-feira

vagueai inconsoláveis

ela nem tinha reparado nisso, mas metade da sua vida activa estava cumprida. o resto seria um extra esforçado e esticado prolongamento de sobrevivência, se não morresse cedo. quando encontrou esse caso, fazia mais um teste ao seu poder de sedução, um desmame do jejum sexual. havia uma incógnita, sim, mas feita de curiosidade, desejo e um pequeno fascínio intelectual. a prova do gosto surpreendeu e começava a prende-la. as pessoas podiam entender-se e respeitar-se e terem a sua vida calma e aprazível. podiam flirtar, e deliciar-se com coisas gostosas, e ter tempo para ter tempo partilhado. e podiam entender-se no intelecto e no leito. e podiam apreciar-se mesmo se a economia do país se deprecia. e nada parecia rimar com acidez ou segredo. que coisa mais estranha!
senhora de si, achou irreal essa compostura de amante amada. quanto mais me prendes, sem que me prendas, mais te mostro que não estou captiva. e foi então que soltou o gnomo feito da matéria comum dos seres que negam o bem do bom da vida. não há doenças, nem acidentes, nem pontos fracos, só uma inaudita busca pela frustração.
porque se é bom, tem de acabar, não é?

domingo

o truque

se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí.
tenho a madrugada como companheira.
eu estou por aí...
fernanda takai canta isso. encanto-me com ela.

venezia


tem a fama de cidade para amantes ou apaixonados. mas a fama é sempre um rótulo sem substência. transpira história e turismo, tem água por todos os lados, italianos irritados com tantos turistas, gondoleiros mafiosos, concertos diários em igrejas em que tropeçamos a cada esquina. pontes e canais, praças e ruas sem nome, apenas enigmáticas designações: ponte do diabo, calle da senhora, rio terá del biri, pequena rota dos assassinos. um vago cheiro a mofo e um outro a esgoto quando anoitece. não há carros, muitos barcos. há alpendres pendurados sobre telhados de cinco pisos, roupa estendida, pequenos jardins, escassos metros quadrados pendurados numa felicidade de céu. vias estreitas que não deixam ver o sol, e uma luz superiormente incandescente que adormece saudades que não sentem lisboa, a cidade branca. peças de arte onde menos se espera, mercados de frutas em canoas grandes, nenhum sem abrigo, nenhum pedinte, óperas todas e obras em edifícos seiscentistas, onde vivem familias e cães e escritórios de advogados e ateliers de arquitetos. não há muitos empregados veramente venezianos, só os donos das cantinas e tratorias. uma subtil invasão da indochina abastece os locais de repasto com empregados pequenos, morenos, vagamente asiático, num italiano perfeito e uma displicência de serviço prestável e perfeitamente standard. paga-se 50 centimos para atravessar o grande canal em gondola, não se paga nada para andar nele, para trás e para a frente, num vaporeto que pára em todos os apeadeiros. tudo é perto de tudo e simultanemante vasto e distante, porque nenum mapa é explícito na localização da rua... contem 5394 em Canaregio, um dos vários bairros afreguesados, e estamos na casa de corto maltese...mas para lá chegar há que dar uma volta ao mundo. e na praça de roma, sempre dela, é o centro das partidas e chegadas para esse imenso puzle. veneza.

não se vêem amantíssimos namorados, nem casais celebrando bodas, só gente que deambula, ou espera nos clássicos locais do hall da cidade: o passo ducal, a basílica e a torre de são marcos. há demasiados americanos, e os asiáticos ricos em grupos disciplinados. há lojas com astesões dentro, a fazer peças únicas de couro, ou papiros quase fora de validade. uma italiana é mesmo curta, a melhor custou 90 centimos mas a regra é andar pelos dois euros, há gelados em cada esquina, baratos e bons; o esparguete é sempre al dente, o chianti é ácido, e o melhor tiramisu está lá. as máscaras carnavalescas são infinitas em variedade de materiais e rostos, há contrafação por subsaahrianos que fogem lá como cá ao vislumbre de policia e há venda ambulante de roupa made in italia. do aeroporto toma-se o autocarro cinco para a praça que é o interface de transportes. meia hora depois, lá mesmo, apanha-se o vaporeto com mais cento e tal pessoas para a ribeirinha san marco, não há muito para escolher, só duas linhas: 1 e 2, ou N se for entre a meia noite e as três ou mais da manhã. e o silêncio negro esconde todos os fantasmas do passado nos becos de uma cidade arrancada à idade média, ao renascimento, ao futuro, quem sabe...

segunda-feira

vai e vem


aprende-se que não se modifica ninguém.
ensina-se que aprender é uma constante.
a curiosidade alimenta, o trabalho dá solidez.
aprende-se que viajar dá vida. parar mata sempre.
que morremos desde que nascemos. que só paramos, quando morremos.
que ter paciência é sinal de sapiência. que a impaciência é espuma de contrariedades.
que há passos à frente e para os lados, mas ensaiar marcha-atrés só consome tempo.
aprende-se que nada é garantido, nada definitivo.
mas se não há bem que sempre dure, também não há mal que nunca acabe.
que nem tudo depende de nós, que se não depende não o mudamos, mas mudamos o destino conforme nos comprometemos. que ouvir e calar é oportuno, mas calar e nem ouvir é incauto. aprendemos de forma terrível e sem entender, e esquecemos para aprender outra vez e esquecer de seguida. e nada muda, tudo muda, e permanecemos ingénuos e espertos, consoante o adn emocional do nosso mapa pessoal.

sábado

goodbye rem


loosing my religion - REM

...pode perder-se o que nunca se teve?
as músicas deles, por exemplo, permanecem - embora eles se separem.

quarta-feira

levante



Hindi Zahra - Stand Up

conheçam-na e apaixonem-se


Hindi Zahra* - beautiful tango

* 09.11.2011, @ lisboa

sábado

espelho meu

de vez em quando ocorre que a transitoriedade dos dias pode ser mesmo infinita. o que hoje é prazer, logo mais pode descer aos infernos e até aquele ser que nos acompanha sempre pode desgostar de nós. nesse instante, que vale ir ao espelho e perguntar a mim que ando a fazer ao eu? nada. nada de resposta, nada de nada.
cada caminho faz-se de escolhas e consentimentos, que é outra maneira de não escolher escolhendo. e pelos meandros do transitório, procuram-se certezas, pequenas certezas, irrelevantes, irresponsáveis e irregulares. irritantes certezas que consomem e nada somam ao nada que há. de todas as incertezas, a menos falível é o falhar ao tentar e a mais segura de todas o não falhar se não tentar.
tenho horror ao vazio, e ele acolhe-me e consola-me porque é seguro, previsível e constante.
somos nós próprios e as circunstâncias, já dizia Unamuno.
tentar atravessar entre dois arranha-céus no equilíbrio dos inconscientes, faz de nós menos loucos? ou somos mais sãos porque apesar da tentativa conhecemos o risco da queda, mas não a gravidade da fratura, nem a dor que se sente?
tentar sim, até quando? enquanto o medo não for mais forte que o provável degredo.

terça-feira

o farol

uma pedra, depois outra, uma pedra maior, uma outra oval, uma pequenina pedra, e muitas diferentes. com elas fez uma pirâmide irregular. acendeu uma vela, para ter a luz que faltava naquele monte de pedras desordenadas. juntou um pouco de areia em busca da coerência. acendeu uma pequena fogueira com gravetos sem consistência de lareira. por vezes, pensava que tinha um farol, tantos eram os naufragos que procuravam a pálida luz.
e de repente, na incoerência da construção que era a sua vida, sentia o vazio da empreitada. e acendia outra vela, procurando um aroma conveniente, indolente. os novos naufragos chegavam sem-licença de marear, em busca de enormes orelhas e boca pequena, esquecida de fala própria. e neste faz e desfaz espaçado, o tempo não contava para nada, senão fugir-lhe debaixo dos pés.

segunda-feira

Beginners - Official Trailer [HD]


somos sempre principiantes...

um filme que -dizem alguns - pode ser um dos premiados nos próximos óscares.
chama-se 'beginners' e em português é exibido nos cinemas como "assim é o amor". para mim é um grande filme - não pelo tamanho, nem pela carga dramática, não por estar especialmente bem filmado ou montado, não porque vive de uma espectacular história. é cinema terno, triste, optimista, cosmopolita. o cinema é um bocado da vida, que não é nem apoteótica nem suicidária. 'beginners', de mike mills, está classificado como drama-comédia. por aqui já se vê a indefinição. o que realmente interessa em "beginners" não é a moral da história, mas justamente a falta de moral na vida - nas grandes surpresas ou no início de qualquer coisa.

"when it comes to relationships, we’re all beginners."




sexta-feira

ponham o amor na constituição, gratuito e tendencialmente universal

é condiçao do amor ser
transitório
provisório
ilusório
peremptório
e, ao mesmo tempo, é tudo
fecha o mundo, dá-lhe um sentido que rima com sofrido

se não vivessemos a esperança do amor
definitivo, consumido, competitivo, restritivo
...não seríamos tão profetas de uma miraculosa miragem de felicidade

queria um amor para cada pessoa,
gratuito, talvez fortuito,
na crença de que os dias fossem mais toleráveis e aprazíveis

não sei se o amor é fodido, mas bem que podia ser!

quarta-feira

osculando atitudes

coisas que desgosto... sempre, ás vezes, um poucoxinho grande!... dita-duras, do pensamento, do pré-conceito, estreito e nhurro. falácias ditas com convicção, convicções cruzadas com despautério. e declarações de princípio, como se a plateia estivesse à beira do precípicio, em risco fatal, numa queda certeira, salva apenas pelo amén. e as tristezas várias quando lhes morre a esperança, na fluidez da crença, uma tremura insana, o antes assim. o prejuizo da não-desculpa, o esquecimento d'obrigado, os seres alheios à delicadeza do trato. e os favores, favorzinhos, vá lá, dê um jeitinho. a falta de atenção na repartição, a impaciência militante, o fulgor da inabilidade, o arrojo imaturo, a flacidez das ideias, e aquele gesto tenebroso do assentir com a cabeça, qual inerte cachorro de porcelana. e os pressentimentos tão fortes que vão direitinhos ao que queremos ver acontecer, porque se a realidade não se muda, altera-se a percepção que dela temos e o mundo molda-se como adivinhamos. é tudo tão mais fácil assim! com ultimatos, berros escritos, sussurros cuscuvilheiros e armadilhas rasteiras. e com rezas, de igreja ou de partido, mudam-se os símbolos intocáveis e continuamos carneiros num rebanho. e depois, há ainda a força das matilhas, das manadas, das tribos, um disparate de declarações e confusões, bicos-de-pés e desnorte. chiça! há quem não se enxergue como a poeira num pedaço de areia, nano-nano-dimensional face ao mundo real.

osculando palavras

coisas que gosto de gostar... aquela persistência tonta de não desistir e concretizar, tecnologicamente falando! a mania de não dar valor ao valor que outros dão, porque nada do que é dado é valorizado! a coragem de não ter limites no acreditar que é possível, por mais vozes que se façam ouvir num coro grego trágico, que é cómico sem o saber! a futilidade de não ver o perigo, muito menos medi-lo, pesem as experiências e as hordas de tolos que se levam demasiado a sério, como se o mundo cuidasse de temer fátuos poderes! a vida que golpeia o destino, que sisudo vira alegria, e soma prazeres e deambulações descomprometidas, ora tristes ora alegres, sempre vitais! e os seres de luz, luz parda por vezes, luz branca, luz laranja, ainda assim, luz que não se paga nem tem preço!
o medo é um complemento vazio para o verbo que ninguém sente. ter não é ser.
gracias a la vida, que me ha dado tanto!

domingo

desviadas e flor de lótus

entreabrem-se, matreiros e delicados, até que o desfiladeiro me toma de vertigem. são ténues as vontades racionais, somos infinitamente mais animais que gente - mesmo quando se trata de lábios ou genitais.


nesse instante, digitalmente equilibro-me entre o desejo e a necessidade de mergulhar num mar desconhecido e tortuoso, sem molhe de salvação. sou volvo em vulva.o toque leve dos dedos percorrre suavemente o franzido onde me perco. a cabeça mantém a distância prudente que impedirá a rendição do amor. é o mínimo de decência que meço. não posso apegar-me outra vez.


segundos de compasso sem espera.vejo que não vi um rosa-míscaro como o teu, imagem tão bela, um encantamento de olhar.



soerguo-me ante o despontar, concentrada no risco de asneira que me apetecia verbalizar.


ele, flor de lótus - é? - um anel concêntrico e vermelho pálido, saindo do esconderijo quando respiras ou resfolegas, quando te acaricío levemente. sem odor, dor, cor, nada mais interessa naquela fracção de tempo. quando gemes e me chamas com a crueza dos néscios, sigo na vontade de te fazer vir. percepciono o meu exterior concentrada em ti, como se esse fosse um momento único e superior.



coitados d@s amantes que se enganam com a realidade. e acordam com o desconforto dos equívocos.





[nada é mais frágil que a franqueza com que comungamos os prazeres, pensando que ninguém faz deles a sua própria contabilidade criativa. e não há agências de rating para os afectos. lixo mais que perfeito, diriam elas.]

terça-feira

a esteta

a tótó reclama direitos herdados de um desgoverno prazeiroso, ao mesmo tempo que o governo absolutamente maioritário do país dos chico-espertos VS otários aumenta os passes dos transportes em 25 por cento.
no mesmo cenário cosmopolita, uma bela esteticista, não tão jovem assim, mas artista até ao miolo, contava-me a história que me deixou sem fõlego:
nascida onde a europa e a ásia se juntam-ou-separam, foi primeiro vendida algures no tempo e no espaço e depois massacrada pelo marido luso. desejou ter filhos varões, e alá fez-lhe a vontade. antes assim, senhora, que as mulheres sofrem muito. pedi muito e alá concedeu-me, dois filhos homens queridos, que eduquei e me acarinham. orgulhosa da prole sem vícios, só tem um desejo: conhecer o dubai. de resto nem os filhos querem regressar ao irão natal, nem ela concebe outro país para viver que este nosso. a mulher com nome de ópera fala línguas estranhas: russo, árabe, turco, azeri, casaque, e português homologado pelo exame que fez. todo o seu dia começa sem uma hora de acabar, e quando regressa a casa só tem uma meta: recuperar forças para o dia seguinte. eu gosto de fazer bem o meu trabalho para a senhora sair daqui mais bonita,... ainda mais bonita. ....sim, a língua de camões é muito ardilosa. e ali mesmo no largo do dito, há quem fantasie e quem realize. a escolha afinal é sempre de cada um.

domingo

a dor e os amigos

num dia, há 40 graus para derreter em qualquer lugar. uma marcha de galdérias, um desfile de ciclistas nus, uma festa de gays e lésbicas. milhões de pessoas nas praias ao sol tórrido, transportes colectivos apinhados, carros de família em pára-arranca doloroso. num dia, há notícias que não vemos, nem lemos, nem queremos saber. a noite é do demo, na alegria e na bebedeira, no deve e haver de amor-sei-lá-se-é. num dia, somos felizes. no outro acordamos tristes de um sono leve e agitado, e nada do que possámos pensar nos alívia a dor. e como não há dores perfeitas, há alguém que nos liga 'do outro lado', e alguém que nos liga deste a falar do lado de lá da dor mais profunda. há um sms sem valor, meramente simbólico, a imperfeição dos pêsames, tão humana, descascada de pudor.
é nesse exacto momento que balançamos entre o que temos de menos e o que não teremos nunca mais, um dia. temos sempre de menos o transitório sem perceber o valor do que é incondicional. inventar problemas? eles mesmos entram na nossa vida com a armadura dos sérios e a censura devida aos levianos.
os amigos, dois amigos, tão diferentes e tão iguais, tão desprotegidos e tão fraternos. como compensar as dádivas e o amor incondicional que me dão?
como suspender-lhes a dor e resgatá-los do lugar onde manda o sofrimento?

sábado

(fora) do armário

O armário é um sítio amplo e devidamente naftalizado para que não entrem bichos. Todas as peças se arrumam devidamente num armário confortável. O grande inconveniente dos armários são as portas. De vez em quando, abrem-se! Entra uma brisa de ar fresco, sente-se um fôlego de liberdade. Cá fora, o oxigénio é mais respirável embora propício a focos de infecção. O habitante do armário, experimentando o ar público, teme represálias bacterianas. Mune-se de coragem para se fazer ao mundo; ou volta para dentro enquanto a porta está entreaberta.
Lá dentro, mais cedo do que tarde, sucumbe à assepsia dos armários, quando não à tristeza do isolamento.
Dentro dos armários, fica-se tendencialmente quadrado, como os paralelipípedos que se pisam na rua, o espaço público de todas as identidades. Fora do armário, há correntes de ar, chuvas e coriscos, poeiras e malvadezas várias. Mas também há sol, mar e boa gente. Não é o lusco-fusco dos armários bafientos, mas a vida a cores em todas as dimensões.

Moral da história:
Ninguém é inteiro, enquanto esconde ou contradiz uma parte de si mesm@.
Ninguém consegue iludir-se o tempo todo.
Ninguém é feliz escondendo-se.
Ninguém é feliz sozinho.
Ninguém pode fazer por outrem, aquilo que esse outro recusa.
E se, quem pode, não quer mudar, nada adianta escudar-se em terceiros.

sexta-feira

lua nova

gostar é simples, descomprometido, gostoso, malvado. havia umas escadas que trepamos de mão dada. fomos dar a um sítio escuro e vazio que enchemos com pressa. exteriorizamos a pele, com os trapos para o chão. não estava frio, nem dia, ainda não era verão. não foi brusco, nem suave aquele abraço em que nos mergulhámos. um beijo longo espalhou-se com sofreguidão. humedecemos para lá dos lábios juntos e logo ali me tomaste inteira. tentei não machucar a frágil textura do teu corpo. em cada milímetro da tua pele deslizava o meu desejo. eu não sabia como te tomar. nunca sei. nesse preciso instante, desliguei o complexómetro e entrei em comando remoto. algures afrodite havia de me guiar. tudo o que se passou depois surtiu efeito. suor, músculos, insónia e aconchego. um disparate de fluidos e gestos sem plafond. e cada vez que me lembro de ti, oscilo. entre a ternura da delicada figura e a dimensão do rombo no meu coração.

quinta-feira

saravá

a gente passa a vida a repetir-se
os meus amores-perfeitos são de uma inusitada ética
murcham, arrebitam, sorriem e nunca mais acabam

do amor desastrado, e dos golpes de sorte, aporto num cais
ela entra de mansinho, quero até nunca mais
tenho o escrúpulo do ralenti, jeito de amadora, toque de veludo

sou absolutamente exclusivista, introspectiva, devotada
ninguém mais entende este gostar de alguém
há uma estética parva a atirar para o arco-íris
festejo um dia de chuva e todo o sol escaldante
queimo o cérebro em conjecturas, risco lembranças a traço de lápis

a estética das amantes é antagónica ao que supõem delas
e toda a pressa resulta em precipício
um princípio apenas, para um voo divino
peço proteção aos planetas e aos mares
tudo me revolve as entranhas
mas a alegria é mesmo um destino

sexta-feira

dois anos, cinco meses, uns dias e algumas horas depois.


tudo mudou de forma muda, mais perto do antes, mais perto do que sou.
decisões que custam horrores. horrores decididos sem custo.
a vida dá voltas e encaixa, dois passos adiante, mais perto do mar -
falta tempo para o contemplar.


de resto, se arrependimento matasse a vida era eterna.

domingo

imenso rima com feliz?

as palavras desejadas,
o beijo mais que perfeito,
a multa mais pesada
e um passado imperfeito

na nuca o peso de soco suave,
neurónios em modo hibernado,
preguiça que é entrave,
no dia mais perdulário


há ontens que pesam, e alegram,... e amanhã redentores.

segunda-feira



te valorizo [tiê]

lonely can be sweet [ursula rucker]

domingo



comme un boomerang [serge gainsbourg]
uma semana em que a vida leva uma volta.
nada visível, nada exterior, tanto melhor.

segunda-feira

raispartaisto

há dias em que acordo quase extraordinariamente bem disposta e depois alguém - sempre quis escrever isto... - fode tudo! e por essas e por outras que começo a ficar farta de gente, não só de gentinha, mas de pessoas no geral e de sonsos em particular. sonsos e sonsas, que nisso não há diferenças entre os géneros. parece que tiraram o dia para treinar tiro ao alvo com arco e flecha, na maçã que está em cima da minha cabeça. eu sei que não está lá nenhuma maçã, nem uma auréola santa, apenas algum cabelo. só cá por coisas, se pudesse, cortava a cabeça e lá se iam os tiros. assim, aguenta-se e 'prá frente'... que atrás vem gente. logo, quando esta tortura de sonsice tiver um intervalo, vou tentar adormecer como se mergulhasse no oceano profundo, negro, frio, salgado, ameaçador. sem medos.

clube Safo_uma 2.ª oportunidade

morte anunciada da associação clube safo pode não acontecer, se as mulheres que não desejam esse fim se mobilizarem. há já um grupo animado com esse propósito que tentará, na assembleia-geral marcada para sábado, 26 de março, 14h30, em lisboa, iniciar o relançamento da actividade. há uma declaração de intenções e, para já, basta que sócias e não sócias se expressem.
a mensagem é simples:

Se estiveres disponível contacta-nos no grupo do facebook
“Pessoas que não querem deixar morrer o Clube Safo” https://www.facebook.com/group.php?gid=327740996119&ref=ts ou 965449148 ou para o endereço de e-mail amigascsafo@gmail.com

domingo

visita @ amigas

a riqueza da vida também passa pelos amigos.
há coisas que não se pedem. ou se oferecem ou não.
por exemplo, a amizade, numa forma ou noutra, constante ou singular, longa ou efémera.
há pessoas que não conhecemos, mas que visitamos, e é bom na mesma.
há tempo que isso acontece com o blog alma gémea, que um dia destes escreveu uma coisa provavelmente 'vulgar', simples mas muito bonita:

Um passo de cada vez,
Um alento de cada vez,
Um degrau de cada vez,
Uma palavra de cada vez,
Um dia de cada vez.

quarta-feira

uma das mais belas canções



fade into you [mazzy star]
...dedicatória COMSENTIDO

domingo

segurem-se e enlouqueçam


listen to your love [mona]

sexta-feira



assim, como quem vai ali e volta de alma cheia,... a partir de 19 de março, vive la france!


I don't love anyone [belle & sebastian]

quinta-feira



working class hero [john lennon]

quarta-feira

(penso que) os seres humanos têm de crescer. a violência é um estado primitivo. A discussão permite-nos crescer.” [entrevista ao d.n. - ingrid betancourt, franco-colombiana que passou 2321 sequestrada na selva pelas farc]

terça-feira

a leveza da vida quotidiana não sabe nada do soco que levamos na despedida... [série aforismos caseiros]